“James Bond é um instrumento contundente empunhado por um departamento do governo”, escreveu o seu criador, Ian Fleming. “É calado, duro, implacável, sarcástico e fatalista. Gosta de jogo, de golfe e de carros rápidos.”
Fleming, 007 e a obsessão automóvel
Estas coordenadas do personagem foram respeitadas - e reinterpretadas com generosidade - ao longo dos 24 filmes em que o espião fictício mais mediático do planeta apareceu nos últimos 58 anos.
Agora, o Bond 25 está mesmo a chegar. Sem Tempo para Morrer estreia nas salas de cinema esta semana e dá a Daniel Craig a oportunidade de se despedir do papel de 007, espremendo-lhe o lado mais emocional, enquanto a equipa de duplos e os responsáveis de produção voltam a reinventar a própria ideia de uma perseguição automóvel. Ao que se diz, Sem Tempo para Morrer inclui a cena mais brutal alguma vez vista num filme de Bond. E isso fez-nos pensar.
Seis actores deram vida a 007 no grande ecrã - e todos eles foram acompanhados por “co-protagonistas” sobre rodas escolhidos com o mesmo cuidado.
Para muitos de nós, ver um filme do Bond na televisão numa idade formativa foi, provavelmente, um dos gatilhos que nos empurrou para uma paixão sem remédio por automóveis. A gigantesca base global de fãs de 007 discute sem fim quem foi o melhor Bond, mas há outra pergunta igualmente importante: qual deles teve o carro mais fixe?
Escolhendo um automóvel por actor, a Top Gear reuniu as máquinas-chave no mesmo ponto do contínuo espaço-tempo para revisitar a história de cada uma e fazer um teste quase científico - mas, sobretudo, subjectivo. Hoje, é a vez do DBS do Lazenby…
Fotografia: Mark Riccioni e John Wycherley
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George Lazenby e Ao Serviço de Sua Majestade
O realizador Christopher Nolan é um admirador confesso de Ao Serviço de Sua Majestade, o “filme órfão” de Bond de 1969. “O que gostei nele é que existe um equilíbrio tremendo entre acção, escala e romantismo, tragédia e emoção”, disse à Empire. “De todos os filmes de Bond, é de longe o mais emocional.”
Fica a curiosidade sobre que emoções sente hoje o seu protagonista, George Lazenby. Modelo australiano, entrou numa audição à base de lata - e acabou por conquistar o papel mais cobiçado do cinema. Só que depois não alinhou com a cartilha: deixou o cabelo crescer, pôs barba e, na era de Easy Rider – A Liberdade é a Estrada, convenceu-se de que Bond já não fazia sentido. Estava enganado e, com isso, acabou por se afastar a si próprio de uma carreira que parecia bem encaminhada.
Conduzir um DBS é um lembrete de uma época em que a “estabilidade em estrada” preocupava mais do que o comportamento
Aston Martin DBS: substituto do DB6 e mudança de estilo
A verdade é que tanto Lazenby como Ao Serviço de Sua Majestade são, surpreendentemente, muito bons. Vemos o actor e o seu Aston Martin DBS numa sequência antes dos créditos carregada de emoção, em que persegue Tracy di Vincenzo numa praia portuguesa.
David Brown, então proprietário da Aston Martin, percebeu que era essencial encontrar um substituto para o já envelhecido DB6, se a marca queria acompanhar um mercado em rápida evolução. A Touring de Milão, parceira criativa de longa data, foi chamada para desenhar o sucessor, e dois protótipos foram apresentados nos salões de Paris, Londres e Turim em 1966. Nota-se uma interpretação mais esguia da icónica grelha da Aston; o pilar C e as ranhuras da carroçaria revelam uma clara influência do Ferrari 275 GTB.
Só que, no fim de 1966, a Touring faliu. A Aston recorreu então a William Towns - antigo designer do Rootes Group e da Rover -, que desenhou o DBS em menos de um ano. O plano passava por estrear um novo motor V8, mas o desenvolvimento estava atrasado e o DBS foi apresentado em Blenheim Palace, em Setembro de 1967, com o mesmo seis em linha de 4,0 litros e 282 bhp do DB6. Ainda assim, o motor ficou montado mais recuado no chassis e a suspensão independente às quatro rodas elevou o nível do seu porte.
Ao volante, mais de meio século depois
Passados mais de 50 anos, conduzir um DBS faz-nos regressar a um tempo em que a “estabilidade em estrada” era mais obsessão do que a precisão de curva. É exactamente isso que nos atravessa a cabeça quando nos aproximamos de uma viragem: um toque no enorme pedal do acelerador, uma redução, as mãos no grande volante de três raios e, depois, apontar para a zona geral do apex. No fundo, é o melhor cenário possível.
O desenho do DBS tem um sabor mais americano do que a mistura italiana de que o seu antecessor beneficiou - e essa influência também se sente na atitude. A suspensão macia ajuda a compensar a tendência para adornar, e os interruptores tipo “rocker” no tablier prometem uma modernidade que o resto do conjunto nem sempre confirma. Ainda assim, é difícil imaginar um único momento em que não desse prazer conduzir um DBS - excepto, claro, naquelas ocasiões em que pode “recusar-se a avançar”.
Pontuações do Aston Martin DBS
Gadgets: 4/10
Acrobacias: 4/10
Estatuto de estrela: 6/10
Velocidade: 6/10
Força de arranque: 7/10
Derrapagens: 6/10
Total: 33
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