A culpa é de Elmbridge, Surrey
O distrito de Elmbridge, em Surrey: é a ele que aponto o dedo por tudo isto. Não, não é por eu estar parado dentro de uma poça de água castanha, nem por o banco de trás parecer que um T-Rex espirrou batido de chocolate para todo o lado - isso é inteiramente culpa minha. O que Elmbridge, essa zona arborizada e suburbana a sudoeste de Londres, tem mesmo em mãos é a responsabilidade pela existência do carro absurdo em que estou: o Volkswagen T-Roc Cabriolet.
E porquê? Há alguns anos, Elmbridge foi apontado como a “capital dos descapotáveis” do Reino Unido, com mais de 5.300 capotas abertas registadas na área envolvente. A verdade é que, por alguma razão, nós britânicos adoraaaamos um cabrio. O que tem a sua graça, tendo em conta a fama de céu cinzento e meses de chuvisco. Só que também adoraaaamos SUVs: no ano passado venderam-se mais 12% destes carros do que no ano anterior. Não surpreende, portanto, que alguém esperto na Volkswagen (provavelmente no marketing) tenha juntado as peças e transformado isto numa ideia.
Consigo imaginar a conversa na sala de reuniões mais ou menos assim: “Conhecem o T-Roc? É o nosso quarto modelo mais vendido. E aqueles britânicos parvos adoram descapotáveis. Também adoram SUVs pequenos, tipo crossover. Portanto… vamos rapar-lhe a cabeça e dar ao distrito de Elmbridge aquilo que ele acha que quer!”
- Texto: Rowan Horncastle // Fotografia: Mark Riccioni
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De ideias más: do Murano CrossCabriolet ao Evoque convertible
Esta história de dar a um SUV um “corte de cabelo de confinamento” não começou agora. Em 2010, alguém na Nissan teve exactamente a mesma epifania e o resultado foi o primeiro crossover descapotável: o Murano CrossCabriolet. Só que, antes de os chefes da Nissan começarem a acender charutos com notas de 50 libras, havia alguns “pormenores” a resolver. Para começar, o Murano CC era mesmo horrível. Depois, era bastante inútil. Foi varrido para debaixo do tapete e, desde então, tem sido gozado em listas do tipo “Top 5 dos Carros Mais Estúpidos de Sempre!”, dessas feitas para sacar cliques.
Em 2015, outro iluminado (desta vez na Land Rover) decidiu tentar a sorte com um mini-Rangie de 50 mil libras, capota de lona incluída. É verdade que o Evoque convertible foi executado com mais convicção e mais estilo, mas acabou por sair de cena e foi descontinuado. Como acontece com as modas, demos a volta completa e chegámos ao T-Roc Cab.
Foi por isso que, em nome do serviço público e da curiosidade jornalística, quis perceber até que ponto este SUV parvo se afastou daquilo que se espera de um SUV a sério. A minha “experiência” (se é que se lhe pode chamar isso) foi colar-me a um passeio fora de estrada de um grupo de entusiastas.
Teste todo-o-terreno ao Volkswagen T-Roc Cabriolet
O T-Roc Cab, no fundo, é a versão descapotável de uma espécie de Golf mais alto, com ar de 4x4. É um nicho dentro de um nicho, embrulhado noutro nicho. Já os SUVs com quem vim brincar não têm nada de delicados: são o lado sério do espectro - guinchos, autocolantes nos vidros a declarar fidelidade a associações de trilhos, e uma mistura de óleo com terra enfiada nas porcas das rodas.
Como é fácil imaginar, um londrino afetado a aparecer - capota aberta, claro - num T-Roc para se meter no passeio deles foi tão bem recebido como uma colher de ipeca.
“Olha quem é! A Barbie do Safari!”, grita um. Nesta altura apetece-me responder torto e perguntar porque é que um carro destes deixa estes viciados da lama com a cara tão vermelha. Afinal, os Land Rover são “descapotáveis” desde 1948 e do Series One. Mas por causa de uma coisa chamada “intimidação” (e também porque apareci de calças chino creme e sapatilhas brancas modernas), fico calado e puxo conversa sobre o tema que eles realmente adoram: os próprios carros.
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À minha volta há uma montra completa de monstros incríveis, de lados direitos e suspensões levantadas. Sobretudo Land Rovers e Land Cruisers, mas também um Jeep Cherokee com barra frontal, salpicado de lama, que parece mover-se apenas a partir do entusiasmo do dono. Cada um dá a sensação de conseguir atravessar falhas tectónicas e descer desfiladeiros a rastejar - em especial um Discovery 2 com ar mesmo ameaçador.
Esse Discovery 2 calça pneus de lama Trepador de 37 polegadas (cerca de 94 cm), tem 35 cm de altura ao solo graças aos seus três diferenciais com bloqueio (todos com protecções amarelas que parecem capacetes de rugby), um sistema de regulação de pressão dos pneus a bordo, e mostradores de guinada e de inclinação como os de um Cessna. Ao volante, alguém que parece ser mais feliz a dormir num turfeiro.
O T-Roc, por sua vez, é de tracção dianteira, traz um quatro cilindros transversal 1,5 litros com 148 cv ligado a uma caixa de dupla embraiagem, não tem modos de fora de estrada e conta com um condutor com pouca experiência e a cara toda queimada do sol.
Com apostas feitas sobre quanto tempo demoraria até o T-Roc ficar preso, seguimos para os montes - literalmente. Ir atrás dos diesel a bufar, enquanto aproveito uma experiência panorâmica totalmente ao ar livre, significa encher rapidamente os pulmões com as nuvens acre e carcinogénicas que saem dos escapes deles. Ainda assim, o T-Roc vai avançando com uma facilidade e um conforto surpreendentes.
O problema é que a única “armadura” contra os elementos é um conjunto modesto de protecções em alumínio, a tentar resguardar as partes importantes e oleosas. E, a julgar por alguns sons pouco simpáticos de raspagem, até estão a fazer o seu trabalho - porque o cárter não é sacrificado nos primeiros metros da expedição.
O primeiro obstáculo é uma sequência de rampas basculantes feitas para torcer um chassis como se fosse um pano. Com uma articulação quase cómica, o comboio passa sem drama. Eu sigo atrás para não ficar a ver, e o T-Roc levanta logo a roda dianteira direita para o ar, depois balança para o outro lado e oferece a traseira esquerda.
Em muitos carros com tejadilho dobrável em Z, este tipo de tortura torsional estalaria o pára-brisas. Aqui, graças a uma moldura de pára-brisas mais rígida e a reforços adicionais na estrutura inferior, nos painéis laterais, nas travessas e nas portas, o T-Roc mantém-se surpreendentemente sólido. Só que este “espartilho” de reforço cobra um preço: massa.
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O cabriolet pesa mais 190 kg do que um T-Roc normal com a mesma motorização. E empurrar 1.540 kg por subidas íngremes com 148 cv e apenas duas rodas motrizes é penoso… como descubro quando começo a deslizar para trás numa nuvem de fumo, com um pneu a patinar sozinho.
“A chave é o embalo”, dizem-me. Na segunda tentativa, ponho o peso a trabalhar a meu favor e mantenho o acelerador. Espantosamente, os pneus totalmente orientados para estrada agarram, e o pequeno VW começa a trepar por sítios que eu não imaginava. Nem o Simon Bush nem a Lyndsay Mottram esperavam que ele fizesse o que está a fazer.
Parte do mérito é do XDS da Volkswagen, o diferencial electrónico. Ele imita um diferencial autoblocante: os computadores “mastigam” os dados do piso, travam a roda que patina e empurram a força para o outro lado.
Se há coisa para a qual o T-Roc definitivamente não foi desenhado é para atravessar água. Mas, pressionado pelos entusiastas que atiram os carros de barriga para um charco, eu também tento. E, de alguma forma, consigo passar… mesmo com a admissão de ar exactamente onde está num Golf: montada baixa, logo acima da matrícula.
Infelizmente, o mesmo não acontece ao Cherokee cheio de boa vontade, que aspira água do pântano pelo “nariz” e morre ali mesmo. Nessa altura, saco o meu almoço citadino de maki - só para esfregar um bocadinho.
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Passamos o resto do dia a brincar num recreio primordial (uma pedreira) e, enquanto o T-Roc salta de um lado para o outro com água a chapinhar nas longarinas, eu não consigo parar de me rir. Acho que… estou… a divertir-me.
A certa altura, o T-Roc é chamado a servir de âncora no terreno para ajudar a guinchar um Defender encalhado. Como não me apetece molhar os sapatos, isso dá-me tempo para baixar a adrenalina e pensar com mais calma.
Mesmo tendo-se portado bem hoje, o Volkswagen T-Roc Cabriolet não devia existir. Não faz falta. Ninguém precisa de um todo-o-caminho descapotável; precisa é de um descapotável. Aliás, ninguém precisa mesmo de um todo-o-caminho: precisa de um hatchback normal. Ou de uma carrinha.
E depois há o preço. Tal como foi testado, custa 41 mil libras - um valor obsceno, sobretudo quando se pensa noutros descapotáveis que se conseguem comprar por este dinheiro. Ainda assim, haverá consumidores crédulos a comprá-lo. Em grande parte, pessoas que vivem no distrito de Elmbridge, Surrey. Mas, se nada mais, ao menos agora sabem que ele vai um pouco mais longe fora de estrada do que a festa da aldeia de Shepperton.
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