Na manhã de 24 de julho de 1915, mais de 2.500 pessoas já se encontravam a bordo de um navio atracado em Chicago, à espera apenas de zarpar para um passeio. Só que a excursão nunca chegou a acontecer. O SS Eastland adernou enquanto ainda estava encostado ao cais, convertendo um dia de lazer para funcionários e famílias numa tragédia que tirou a vida a 844 pessoas.
O passeio nem chegou a começar?
O Eastland era um dos navios fretados para transportar trabalhadores da fábrica Hawthorne Works, da Western Electric, e os seus familiares até Michigan City, no Indiana. Desde muito cedo, homens, mulheres e muitas crianças foram entrando com espírito festivo, num dos principais eventos sociais promovidos pela empresa naquele verão.
À medida que os passageiros se distribuíam pelos conveses, a embarcação começou a inclinar-se para um dos lados. Por breves instantes, a inclinação pareceu abrandar, mas voltou com mais força. Cerca das 7h28, antes de iniciar a travessia pelo lago Michigan, o navio acabou por tombar por completo no rio Chicago, ainda praticamente ao alcance do cais.
Por que o SS Eastland era tão instável?
A catástrofe não resultou de um defeito totalmente inesperado. O Eastland tinha um historial de inclinações consideradas perigosas e reunia características que complicavam a estabilidade. O seu centro de gravidade era problemático, não tinha quilha e dependia de tanques de lastro para se manter nivelado quando recebia grandes concentrações de passageiros.
Com o passar dos anos, alterações feitas à embarcação aumentaram a capacidade e o peso. Depois do Titanic, novas exigências de segurança também levaram à instalação de mais botes, jangadas e equipamento, muito dele guardado nas zonas superiores. Esse peso extra não foi, por si só, a causa do problema, mas agravou uma embarcação que já apresentava vulnerabilidades de estabilidade.
O que aconteceu quando o navio virou?
A inclinação tornou-se rapidamente impossível de corrigir. Pessoas, mobiliário e outros objectos começaram a deslizar pelos espaços interiores, ao mesmo tempo que a água entrava por aberturas e compartimentos. Quem estava nos pisos mais baixos tentou chegar a escadas e saídas, mas o tombamento foi tão rápido que centenas ficaram presas dentro do navio.
Em poucos minutos, um passeio em família transformou-se numa operação desesperada de salvamento. A sequência ajuda a perceber por que razão houve tantas vítimas mesmo acontecendo a poucos metros de terra firme. Não houve sequer tempo para distribuir coletes nem para colocar os botes salva-vidas na água.
- Mais de 2.500 passageiros e tripulantes estavam a bordo quando o Eastland começou a inclinar.
- O navio tombou no rio Chicago antes de iniciar efectivamente a viagem.
- Passageiros nos compartimentos interiores foram atingidos pela água, por objectos e pela dificuldade em chegar às saídas.
- Pessoas que estavam nas partes superiores conseguiram alcançar o lado exposto do casco.
- Ao todo, 844 pessoas morreram no desastre ocorrido em plena zona central de Chicago.
Veja o vídeo partilhado pelo canal do YouTube Fatos Desconhecidos, com mais pormenores sobre a tragédia do Eastland de que quase ninguém se lembra.
Como alguns escaparam andando sobre o casco?
Naquele ponto, o rio tinha cerca de seis metros de profundidade, por isso o Eastland não ficou totalmente submerso. Depois de virar, uma parte do casco permaneceu exposta. Passageiros que conseguiram chegar ao lado superior limitaram-se a subir para a superfície da embarcação tombada e caminharam sobre o casco até à segurança. Alguns nem chegaram a ficar molhados.
Para quem estava no interior, porém, o cenário era o oposto. As equipas de resgate começaram a retirar sobreviventes por janelas e outras aberturas, enquanto mergulhadores procuravam pessoas presas nos compartimentos submersos. A proximidade do cais criou um contraste brutal: havia sobreviventes de pé sobre o navio e, poucos metros abaixo, dezenas continuavam sem qualquer saída.
Por que uma tragédia tão grande foi esquecida?
O Eastland provocou uma das maiores catástrofes marítimas da história dos Estados Unidos e afectou sobretudo famílias trabalhadoras e comunidades de imigrantes ligadas à Western Electric. Ainda assim, o seu nome nunca ocupou, no imaginário popular, o lugar reservado ao Titanic ou ao Lusitania - desastres internacionais ocorridos em alto-mar.
Talvez seja precisamente isso que torna este episódio tão perturbador: 844 pessoas morreram sem que o navio chegasse a partir. Quando se voltar a falar dos grandes naufrágios do século XX, vale a pena guardar também o nome SS Eastland e conhecer a sua história - uma forma de evitar que as centenas de vidas perdidas a poucos passos de um cais voltem a desaparecer da memória.
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