Renault 4L, uma sexagenária. É verdade: este ano assinala-se o 60.º aniversário de um dos automóveis mais marcantes de sempre na história da Renault.
Mesmo passadas tantas décadas, continua a ser o modelo mais vendido de sempre da marca francesa. Só que a sua importância não se explica apenas pelos números: a 4L vem carregada de histórias e há muito deixou de ser “só” um carro. Tornou-se um ícone da cultura popular.
E aposto que muitos dos que estão a ler estas linhas conhecem - ou conheceram - alguém que, em algum momento, viveu uma história com uma destas carrinhas. Isso, por si só, diz quase tudo.
Mas se ler sobre as razões que fizeram deste modelo algo tão relevante ajuda, nada bate a experiência de o conduzir. E foi exactamente isso que fizemos, a convite da Renault: fomos até Paris para guiar alguns exemplares da 4L.
O coração da Renault Classic
A jornada arrancou nos Campos Elísios, já brilhantes com as iluminações de Natal que todos os anos enfeitam as ruas de Paris. Depois, houve tempo para uma passagem rápida pelo L’Atelier Renault, a loja mais antiga ainda em funcionamento naquela avenida emblemática.
Foi ali que pude observar de perto alguns dos exemplares mais especiais, graças a uma exposição temporária que coloca a Renault 4L no papel principal.
Ainda assim, aquilo era apenas um aperitivo do que viria no dia seguinte: visitámos a garagem da Renault Classic, na fábrica de Flins (nos arredores de Paris), onde é produzido o Zoe, e encontrámos uma mostra especial com 22 automóveis.
Entre um carro que participou no Dakar e outro que percorreu 40 000 km numa viagem entre a Cidade do Fogo, na Argentina, e o Alaska, nos Estados Unidos, todos os modelos expostos respiravam narrativas míticas e apaixonadas.
Renault 4L: Um ensaio com 41 anos…
No fundo, tudo isto começa numa silhueta que continua a ser das mais reconhecíveis em toda a indústria automóvel. E foi essa figura que procurámos na estrada, numa experiência bem diferente daquelas que normalmente vos descrevemos.
Esqueçam consumos, tempos dos 0 aos 100 km/h, sistemas de infoentretenimento e ajudas electrónicas à condução. Aqui, a viagem é para trás no tempo, para uma era puramente mecânica e analógica.
Se o novo Renault Mégane E-Tech Electric pertence à era da transmissão em contínuo, esta 4L que conduzimos mantém o fascínio do vinil. Mas ainda haverá espaço para ela no «mundo real», onde se fala cada vez mais de mobilidade e cada vez menos de automóveis? Ou estes modelos vivem apenas no nosso imaginário?
A verdade é que eu nem chegava com dúvidas - e não chego. E esta 4L fez questão de o provar logo nos primeiros quilómetros: ainda tem muito para dar.
Ainda actual?
Num contacto deste tipo, a experiência começa no instante em que nos sentamos, colocamos o cinto e pegamos no volante pela primeira vez. E bastaram poucos quilómetros para perceber que este continua a ser um automóvel com argumentos surpreendentemente actuais.
É simples de utilizar, compacto por fora, mais espaçoso por dentro do que a aparência sugere e, acima de tudo, extremamente versátil. São qualidades que hoje procuramos em tantos modelos modernos - e que o Renault 4L conseguiu preservar com o passar dos anos.
Nem a bagageira fica a dever muito, até porque este carro nasceu numa altura em que começavam a surgir os primeiros grandes supermercados. E foi desenhado para ser competente tanto na cidade como fora dela, incluindo cenários rurais - que foram particularmente relevantes na sua concepção -, onde por vezes até era «chamado» a transportar animais.
Motor surpreendeu
Sob o capô está um motor 1.1 de quatro cilindros em linha, com 34 cv de potência, capaz de levar a 4L aos 121 km/h de velocidade máxima - valores que não ficam assim tão longe dos de um Dacia Spring. Na ficha técnica, está longe de soar glamouroso, sobretudo num tempo em que até um pequeno citadino facilmente aparece com perto de 100 cv.
Ainda assim, o comportamento do motor excedeu as minhas expectativas: em baixos regimes responde com bastante vontade e, a meio da faixa, continua sempre pronto a oferecer uma força mais do que aceitável.
E depois há aquela caixa manual de quatro relações. Admito: era uma das minhas maiores curiosidades.
Com um manuseamento muito próprio e montada num local bem diferente do que hoje é habitual, revelou-se simples de usar e em excelente forma. No entanto, depois de conduzir este Renault 4 GTL de 1980, ainda experimentei por breves instantes um Renault 4 de 1968 - e aí as sensações já foram outras. Aqui, 12 anos fizeram mesmo diferença.
Suave e confortável
É confortável, lida muito bem com as irregularidades do piso e mantém-se sempre competente ao passar por cima de uma “invenção” moderna com que este modelo não teve de lidar quando foi lançado: as lombas redutoras de velocidade nas localidades.
Curiosamente, eu contava com um rolamento de carroçaria bem mais evidente em curva. Claro que o corpo é empurrado para o exterior, mas nunca ao ponto de se tornar incómodo.
E depois há a forma…
O desenho continua a chamar a atenção, sobretudo nos exemplares mais recentes, como aquele que conduzi. A grelha dianteira, que integra os faróis redondos, e todos os cromados mantêm o encanto de sempre. E creio que isto é consensual. Afinal, nenhum automóvel atravessa tanto tempo com uma imagem que não agrade a (quase) toda a gente.
É o carro certo para si?
Não podia terminar esta crónica sem responder à pergunta do costume, aquela que normalmente reservamos para o fim de cada ensaio. Confesso que nunca tinha conduzido uma Renault 4L antes desta experiência - e a verdade é que me surpreendeu pela positiva.
Num período dominado pela electrificação e pela digitalização, e com o sector a avançar rumo à condução autónoma, esta Renault 4L serve de lembrete do que o automóvel começou por representar: liberdade no seu estado mais puro, mas também utilidade.
Ajudou a pôr a França sobre rodas no duro pós-guerra, foi o primeiro carro de muitas famílias e, muitas vezes, passou para as gerações seguintes. Porém, mais importante do que isso, conseguiu algo impossível de medir: marcou muita gente. Muita gente mesmo. Eu inclusive.
Ouvi inúmeras histórias sobre os quilómetros sem fim que o meu pai fez ao volante de uma. E a verdade é que, ainda hoje, quando vejo uma 4L na rua, costumo «sacar» do meu telemóvel e tirar uma fotografia. Isto diz muito sobre o significado de um automóvel, não diz?
Por isso, a minha resposta é: sim, é o carro certo para si. Nem que seja por um par de horas, como aconteceu comigo nestes dias. É uma viagem ao passado. Um pedaço de história sobre rodas. E, enquanto a conduzimos, também passamos a fazer parte dela.
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