O Audi Q4 e-tron é o primeiro modelo 100% elétrico da Audi a recorrer à plataforma MEB do Grupo Volkswagen (a mesma que serve de base ao Volkswagen ID.3, ID.4 e ao Skoda Enyaq iV) - e isso, por si só, torna-o numa estreia particularmente relevante.
Com um preço de entrada nos 44 801 euros (Q4 e-tron 35), passa também a ser, no nosso mercado, o elétrico mais acessível da marca dos quatro anéis.
Ainda assim, numa fase em que já existem alternativas como o Mercedes-Benz EQA ou o Volvo XC40 Recharge, importa perceber o que é que este SUV elétrico traz de diferente. Passei cinco dias com ele e explico como correu.
Imagem tipicamente Audi
As proporções e os traços do Audi Q4 e-tron não deixam margem para dúvidas: é um Audi, e sem surpresas mantém-se muito fiel aos protótipos que o anunciaram.
Apesar de, à primeira vista, se impor pela presença em estrada, há também um trabalho aerodinâmico bem afinado por detrás das superfícies e vincos mais elaborados - o resultado é um Cx de apenas 0,28.
Espaço para «dar e vender»
Tal como tem acontecido noutros modelos construídos a partir da MEB, este Audi Q4 e-tron destaca-se de imediato pelas dimensões interiores muito generosas, quase ao nível de propostas de um segmento acima.
A explicação passa, em grande medida, pela arquitectura: a bateria está montada no piso, entre os dois eixos, e os motores estão instalados diretamente sobre os eixos.
Além disso, por ser uma base desenvolvida de raiz para elétricos, não existe túnel de transmissão a ocupar espaço no lugar central atrás - algo que, por exemplo, acontece no Mercedes-Benz EQA.
Na bagageira, a lógica mantém-se: o Q4 e-tron apresenta 520 litros de capacidade, um valor alinhado com o que encontramos no «maior» Audi Q5. Com os bancos traseiros rebatidos, a capacidade passa para 1490 litros.
Para ver (ou voltar a ver) com mais detalhe o interior do Audi Q4 e-tron, podem espreitar o primeiro contacto em vídeo que o Guilherme Costa fez a este elétrico alemão.
E o sistema elétrico, como funciona?
Nesta versão do Q4 e-tron - por agora, a mais potente da gama - encontramos dois motores elétricos. O motor do eixo dianteiro debita 150 kW (204 cv) e 310 Nm de binário máximo. Já o motor no eixo traseiro é responsável por 80 kW (109 cv) e 162 Nm.
O conjunto trabalha com uma bateria de iões de lítio de 82 kWh de capacidade (77 kWh úteis), permitindo uma potência combinada máxima de 220 kW (299 cv) e 460 Nm de binário máximo, valores que são distribuídos pelas quatro rodas. Já as versões 35 e-tron e 40 e-tron, em contraste, utilizam apenas um motor elétrico e recorrem à tração traseira.
Com estes números, o Audi Q4 e-tron 50 quattro cumpre o sprint dos 0 aos 100 km/h em 6,2s e chega aos 180 km/h de velocidade máxima - um limite imposto eletronicamente com o objetivo principal de proteger a bateria.
Autonomia, consumos e carregamentos
Para o Audi Q4 50 e-tron quattro, a Audi anuncia consumos médios de 18,1 kWh/100 km e uma autonomia elétrica de 486 km (ciclo WLTP). Em carregamento AC, a marca garante que, num posto de 11 kW, é possível carregar a bateria na totalidade em 7,5 horas.
No entanto, como este modelo aceita carregamentos até 125 kW em corrente contínua (DC), são necessários apenas 38 minutos para repor 80% da capacidade.
No meu ensaio, os consumos ficaram, curiosamente, muito próximos (para não dizer iguais…) aos números oficiais. Ao longo do teste percorri 657 km com o Q4 50 e-tron quattro, repartidos entre autoestrada (60%) e cidade (40%), e no momento da entrega a média global marcava 18 kWh/100 km.
Em autoestrada, mantendo o limite de 120 km/h e sem utilizar o ar condicionado durante grande parte do tempo, obtive médias entre os 20 kWh/100 km e os 21 kWh/100 km. Em ambiente urbano, como seria de esperar, os valores desceram, com uma média de 16,1 kWh.
Se cruzarmos a média final de 18 kWh/100 km com os 77 kWh úteis, percebemos rapidamente que, a este andamento, se conseguem «arrancar» 426 km da bateria, aos quais ainda se somam alguns quilómetros extra provenientes da recuperação de energia nas desacelerações e travagens.
É um resultado competente e suficiente para dizer que este Q4 e-tron - nesta motorização - cumpre bem as tarefas familiares ao longo da semana e também ao fim de semana, mesmo quando isso implica percursos mais longos.
E na estrada?
Temos cinco modos de condução disponíveis (Auto, Dynamic, Comfort, Efficiency e Individual), que ajustam elementos como o amortecimento da suspensão, a resposta do acelerador e o peso da direção.
Ao escolher o modo Dynamic, as diferenças são imediatas, sobretudo na sensibilidade do acelerador e na assistência da direção, o que ajuda a tirar partido do lado mais rápido desta proposta.
E já que falamos da direção, importa referir que, apesar de não ser tão rápida quanto eu esperava, revela-se muito precisa e, acima de tudo, fácil de ler. A mesma ideia aplica-se ao pedal do travão, cuja atuação é simples de interpretar.
Falta emoção?
Com esta motorização, o Audi Q4 e-tron raramente dá a sensação de ficar sem fôlego e incentiva a aumentar o ritmo. A capacidade de tração impressiona, tal como a forma como o binário é colocado no asfalto e, graças ao centro de gravidade baixo (por causa da localização das baterias), os movimentos laterais da carroçaria estão bem controlados.
O comportamento é previsível, muito estável e claramente seguro - mas pode não satisfazer totalmente quem procura as propostas mais divertidas da marca dos quatro anéis.
A razão é simples: nota-se alguma tendência para a subviragem, que até poderia ser atenuada com uma traseira mais «viva», algo que praticamente nunca se manifesta. A traseira mantém-se muito «colada» à estrada e só em pisos com menos aderência dá sinais mais evidentes.
Ainda assim, nada disto chega a beliscar a experiência ao volante deste SUV elétrico, até porque, na verdade, não foi pensado para ser um modelo orientado para uma condução mais emotiva.
E na autoestrada?
Em cidade, o Audi Q4 e-tron sente-se como «peixe na água«. Mesmo em modo Efficiency, o «poder de disparo» está lá e permite arrancar sempre na frente nos semáforos, ainda que com uma resposta mais progressiva.
Aqui convém também tirar partido dos vários níveis de regeneração na travagem, embora, mesmo com a transmissão no modo “B”, o efeito nunca seja suficiente para dispensar completamente o pedal do travão.
Curiosamente, foi em autoestrada que mais gostei de o conduzir: destacou-se pelo conforto, pela boa insonorização e pela forma descomplicada como acumula quilómetros.
Sei bem que é precisamente neste tipo de utilização que os elétricos continuam a fazer menos sentido. Ainda assim, este Q4 e-tron esteve à altura: numa viagem de ida e volta entre Lisboa e Grândola, a 120 km/h, os consumos não passaram dos 21 kWh/100 km.
É o carro certo para si?
Há vários argumentos fortes neste SUV elétrico da marca dos quatro anéis, começando pela imagem exterior, que é apelativa. E as boas impressões continuam no interior: além de muito espaçoso, é bem organizado e transmite sempre um ambiente acolhedor.
Em estrada, entrega o que se espera de um SUV elétrico deste tamanho: boa autonomia em cidade, utilização agradável, consumos controlados e uma capacidade de aceleração que impressiona e nos consegue colar ao banco.
Podia juntar a tudo isto um comportamento mais vivo? Sim, podia. Mas a verdade é que esse não é o objetivo de um SUV como este, cuja missão principal passa por ser competente e eficaz enquanto modelo 100% elétrico.
E se os «primos» Volkswagen ID.4 e, sobretudo, o Skoda Enyaq iV já tinham mostrado essa competência, aqui temos ainda a qualidade de materiais, de rolamento e de construção a que a Audi nos habituou.
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