O número e a gravidade dos acidentes nas autoestradas portuguesas concessionadas variam de forma marcada consoante o horário e o dia da semana: os sinistros tendem a ser mais severos durante a noite, sobretudo em troços sem iluminação, e as mortes concentram-se principalmente às sextas-feiras e aos domingos. Esta é uma das conclusões de um estudo da Universidade do Minho, cujos autores defendem que a fiscalização seja reforçada justamente nos dias identificados como de maior risco.
O trabalho foi encomendado pela Associação Portuguesa das Concessionárias de Autoestradas e Pontes (APCAP) à Universidade do Minho e apresentado no congresso que assinalou os 25 anos da associação, realizado recentemente em Lisboa. A equipa analisou a sinistralidade em 16 itinerários, abrangendo 10 concessionárias e mais de 2100 quilómetros da rede principal e global, cruzando dados da APCAP com informação da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.
Entre 2019 e 2023 contabilizaram-se 4869 acidentes com vítimas, dos quais resultaram 218 mortos, 485 feridos graves e 7070 feridos leves. "O estudo mostra uma ligeira diminuição da sinistralidade, mas com um desfasamento provocado pela pandemia e uma recuperação posterior para níveis próximos dos de 2019", explicou ao JN a coordenadora da investigação, Elisabete Freitas.
Um dos resultados que mais surpreendeu os investigadores foi a mortalidade de peões em autoestradas - vias onde não deveria existir circulação pedonal. No período em análise (2019 a 2023), registaram-se 23 peões mortos por atropelamento, sendo que 10 dessas pessoas seguiam a pé na faixa de rodagem quando foram colhidas por veículos. Para a investigadora, estes valores acabam por reforçar a ideia de que continua a haver quem desvalorize o perigo de sair do carro em plena autoestrada.
Como fugir ao perigo
"As pessoas não têm noção do perigo que é sair de um carro em plena autoestrada", alertou Elisabete Freitas. Perante uma avaria ou um acidente, a docente aconselha a colocar o colete refletor, sinalizar a situação e afastar-se rapidamente da zona de circulação, procurando proteção atrás das guardas de segurança.
A caracterização do risco ao longo do ano mostra que os meses entre julho e dezembro reúnem o maior número de acidentes, bem como de vítimas mortais e de feridos. Já quanto à gravidade, é durante a noite - com destaque para os troços sem iluminação - que surgem os indicadores mais elevados. Em termos horários, o intervalo entre as 18 e as 21 horas é aquele em que se regista o maior número de mortes.
No que toca ao tipo de sinistro, as colisões traseiras destacam-se claramente como as mais frequentes, seguindo-se os despistes e, depois, as colisões laterais. Os veículos ligeiros surgem envolvidos na maioria dos acidentes, embora os sinistros que incluem veículos pesados apresentem níveis de gravidade mais altos.
Com base neste retrato, o estudo aponta como prioritário reforçar a fiscalização às sextas-feiras e aos domingos, por serem os dias com maior concentração de vítimas mortais. Os autores defendem igualmente um controlo mais apertado da velocidade e a adoção de ferramentas tecnológicas que facilitem a deteção rápida de incidentes e permitam uma resposta mais eficaz.
Quando comparados com redes concessionadas equivalentes noutros países da União Europeia, os indicadores nacionais ficam alinhados com a média. Ainda assim, sublinha-se a dimensão do problema relativo aos peões: "Os números de vítimas mortais entre os peões são muito elevados, mas estão em linha com os outros países da União Europeia", conclui Elisabete Freitas.
70% dos acidentes com homens ao volante
De acordo com o estudo da Universidade do Minho, os homens correspondem a 70% dos condutores envolvidos em acidentes com vítimas nas autoestradas. Independentemente do sexo, a faixa etária mais representada é a dos 25 aos 44 anos, que agrega cerca de 40% dos condutores sinistrados.
Entre os passageiros, porém, o padrão é diferente: as mulheres constituem 60% das vítimas e não se identifica uma faixa etária dominante. Ao contrário do que acontece com os condutores, observa-se um equilíbrio entre os vários grupos etários.
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Bom tempo
A maior parte dos acidentes nas autoestradas ocorre com bom tempo. Os investigadores referem, no entanto, que este resultado reflete sobretudo a existência de muito mais dias com condições meteorológicas favoráveis do que dias de chuva ou de nevoeiro.
Sinalização
Os investigadores sugerem que o Governo defina os requisitos necessários para fiscalizar as distâncias de segurança e considere a utilização complementar de dispositivos luminosos de pré-sinalização de perigo.
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