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Partículas de pneus e microplásticos: impactos em peixes e camarões nos estuários

Carro parado junto a estrada inundada com peixes a nadar e cone de sinalização na água.

Sempre que um automóvel trava, faz uma curva ou simplesmente avança pela estrada, os pneus libertam fragmentos microscópicos de borracha. A chuva arrasta esses resíduos para ribeiros e estuários, onde se revelam muito mais perigosos para a vida marinha do que os cientistas supunham até há pouco.

Um novo trabalho científico indica que estas partículas alteram a forma como peixes e camarões crescem, se alimentam e se comportam, sobretudo depois de passarem algum tempo a degradar-se e a “envelhecer” no ambiente.

Para aproximar os ensaios do que acontece de facto nos cursos de água, os investigadores expuseram duas espécies estuarinas a uma mistura de partículas de pneus envelhecidas e partículas “pristinas”, em vez de dependerem apenas de testes com borracha nova, sem uso.

Um poluente negligenciado

Quando se fala de microplásticos, a conversa costuma centrar-se em resíduos de embalagens e em microesferas de cosméticos.

Os pneus quase nunca entram no debate, apesar de serem um dos maiores contributos: alguns estudos sugerem que o desgaste dos pneus pode representar quase metade dos microplásticos encontrados tanto em sistemas terrestres como aquáticos.

“Conduzir um carro ou até viajar num autocarro é um pouco como arrastar uma borracha pelo planeta, só que as migalhas são microplásticos. Microplásticos tóxicos”, afirmou Britta Baechler, directora de investigação em plásticos oceânicos na Ocean Conservancy, à AGU.

Parte do problema está na forma como são classificados. Só recentemente muitos investigadores ambientais passaram a reconhecer estes fragmentos de pneus como partículas nano e microplásticas, pelo que a verdadeira dimensão do fenómeno deverá ter sido subestimada durante anos.

O que existe realmente num pneu

Um pneu não é apenas “borracha”. É uma mistura de borracha natural e sintética, combinada com químicos, aditivos e metais - componentes que, à medida que o pneu se desgasta, podem acabar por entrar na alimentação de peixes e de outros animais marinhos.

A maioria da investigação disponível tem-se concentrado nos químicos libertados por pneus completamente novos, e não nos detritos que o uso real na estrada produz, o que deixa uma lacuna sobre o que, na prática, está a entrar nas massas de água.

“Vai ver contaminação [por partículas de pneus] mais elevada junto às bermas das estradas, por exemplo, e não apenas nas vias de água”, disse à AGU Susanne Brander, ecotoxicologista na Oregon State University.

As partículas mais pequenas tornam-se transportadas pelo ar no momento em que se formam. Depois, a chuva leva o restante material do pavimento para os sumidouros e drenagens pluviais, que muitas vezes descarregam directamente em fontes de água doce.

“É aí que o ciclo começa. Estas partículas de pneus são pequenas, conseguem deslocar-se, algumas ficam no ar, outras na água, e é assim que se tornam tão omnipresentes”, explicou Baechler à AGU.

Há um ingrediente que se destaca pela toxicidade. O 6PPD, adicionado para impedir que a borracha estale, pode matar salmões a concentrações surpreendentemente baixas.

Recriar condições de estrada

Para reproduzir o que acaba efectivamente por chegar aos cursos de água, os investigadores usaram uma mistura de pneus que reflecte o tráfego típico nos EUA: 14% de camiões ligeiros, 41% de automóveis de passageiros e 45% de camiões e autocarros.

As partículas foram “envelhecidas” ao serem suspensas em água com matéria orgânica e, depois, fragmentadas mecanicamente através de agitação e autoclavagem. Deste processo resultaram micropartículas entre 1 e 20 micrómetros de diâmetro e nanopartículas ainda mais pequenas.

Uma segunda porção foi tratada adicionalmente para isolar o lixiviado - os compostos químicos que as partículas de pneus libertam quando estão em contacto com a água.

Para representar diferentes níveis de contaminação do mundo real, os investigadores expuseram, em fases iniciais de vida, o silverside de interior e camarões mísidos a várias concentrações de partículas de pneus e de lixiviado.

Impacto em peixes e camarões

Em comparação com partículas pristinas, as partículas de pneus envelhecidas levaram a taxas de ingestão significativamente mais elevadas em ambas as espécies.

“Observámos taxas de ingestão significativamente mais elevadas em ambas as espécies quando foram expostas a partículas de pneus envelhecidas”, disse à AGU a autora principal, Clarissa Raguso, investigadora de pós-doutoramento em ciência marinha na Portland State University.

Não houve mortalidade em números relevantes em nenhuma das espécies, mas as partículas envelhecidas abrandaram o crescimento de ambas. Os camarões revelaram maior sensibilidade: reagiram a quantidades mais baixas de detritos de pneus e, no total, ingeriram mais material - provavelmente por terem hábitos de alimentação no fundo.

“Fiquei surpreendida com as respostas específicas de cada espécie”, disse Raguso. “Esperávamos que as partículas de pneus envelhecidas tivessem, de forma consistente, os efeitos mais fortes em ambas as espécies e em todos os parâmetros.”

Também se verificaram alterações comportamentais, embora não da mesma forma. Os peixes responderam mais às partículas pristinas, enquanto os camarões foram mais afectados pelas partículas envelhecidas.

“Embora tenhamos visto efeitos mais fortes no crescimento e na ingestão em ambas as espécies, o aumento de alterações comportamentais associado ao envelhecimento só foi observado em [camarões mísidos], o que sugere que a vulnerabilidade à poluição por pneus varia consoante a espécie”, acrescentou Raguso.

Microplásticos na cadeia alimentar

Algumas exposições desencadearam hiperactividade e atenuaram respostas ao stress; outras fizeram com que os animais abrandassem. Em ambiente natural, qualquer uma destas mudanças pode facilitar a captura por predadores ou interferir com a alimentação e a reprodução, propagando efeitos por toda a cadeia alimentar.

“Os camarões mísidos são um alimento muito importante para espécies críticas”, disse Brander à AGU. “As baleias-cinzentas, por exemplo, comem milhões desses tipos de organismos por dia.”

“Os peixes maiores que apanhamos para consumo comem mísidos. Mesmo que estejamos a olhar para estes pequenos peixes e camarões em fase larvar que os humanos não comem, eles são uma via de passagem para aquilo que nós comemos.”

Reduzir a poluição por pneus

Já existem soluções em desenvolvimento. Alguns investigadores estão a explorar fórmulas de pneus que libertem menos partículas nocivas durante a utilização.

Na Portland State University, outras equipas estão a testar armadilhas concebidas para reter detritos de pneus em águas pluviais antes de chegarem a ambientes marinhos, enquanto um projecto separado está a desenvolver dispositivos que capturam poeira de pneus directamente nos veículos, antes mesmo de tocar na estrada.

“Este estudo é importante porque aproxima a investigação em microplásticos das condições do mundo real, do tipo de partículas a que os organismos estão realmente expostos na natureza”, disse Baechler à AGU.

“E compreender como essas partículas se comportam depois de envelhecerem é absolutamente crucial para avaliar o risco ecológico e orientar estratégias futuras de prevenção e mitigação.”

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