O Renault Clio Eco-G prova que dá para gastar menos sem eletrificar e leva-me a perguntar: porque é que não vemos mais marcas a apostar nesta receita?
A escalada recente dos preços dos combustíveis empurrou muitos condutores para soluções que aliviem a carteira sem exigir uma mudança radical na forma de conduzir ou de usar o carro.
Para alguns, o caminho foi o dos híbridos e dos elétricos. Para outros, o GPL manteve-se como uma resposta lógica. E é precisamente neste segundo grupo que a Renault continua a investir, convencida de que esta tecnologia ainda tem margem para crescer.
Os dados ajudam a perceber porquê. Em 2022, foram matriculados 5467 automóveis a GPL em Portugal. Três anos depois, em 2025, esse total subiu para 20 340 unidades - um aumento de cerca de 272%.
A marca francesa acompanhou (e capitalizou) esta tendência. Se em 2022 vendeu 1225 automóveis a GPL - o que representava uma quota de mercado de 22,69% -, em 2025 passou para 8002 unidades, elevando a sua quota para 39,34%.
É neste enquadramento que aparece o Renault Clio Eco-G 120 EDC: a variante bifuel do utilitário, anunciada desde o lançamento da sexta geração. À primeira vista, pode soar estranho reforçar esta aposta numa altura em que a eletrificação domina o debate automóvel, mas o objetivo é claro: mostrar que o GPL continua a fazer sentido para quem faz muitos quilómetros e quer baixar os custos de utilização - agora com mais potência, mais refinamento e, pela primeira vez, com caixa automática de dupla embraiagem.
Tudo igual (por dentro e por fora)
Do lado de fora, não há praticamente nada que denuncie a presença de uma motorização bifuel - nem sequer um logótipo a assinalar o Eco-G.
Assim, o Clio mantém o desenho desta geração, com linhas que lhe dão um ar mais atual e mais sofisticado, e que também o afastaram daquela estética que, no modelo anterior, parecia agradar a «gregos como a troianos».
No interior, o cenário repete-se: não se notam alterações. Continuamos a ter dois ecrãs de 10,1” e, felizmente, comandos físicos dedicados para a climatização. Os plásticos seguem a tendência do segmento e são maioritariamente duros, mas a aplicação de tecido no tabliê e nas portas dianteiras melhora a perceção de qualidade e o conforto a bordo.
Em termos de espaço, é na bagageira que o GPL «passa fatura». A capacidade desce de 309 litros para 260 litros. No resto, o Clio continua competente: no banco traseiro, dois adultos viajam com conforto, mesmo quando são mais altos.
Competente, independentemente do motor
Nesta nova proposta bifuel, a Renault decidiu associar o Clio apenas a uma caixa automática, justificando a opção por se tratar de um modelo orientado para uma utilização sobretudo urbana.
Também há mudanças importantes no motor: entra um 1.2 turbo de três cilindros, que passa a entregar 120 cv e 200 Nm de binário - mais 20 cv e mais 30 Nm do que na geração anterior.
Neste primeiro contacto, passei a maior parte do tempo no ambiente mais exigente para a fluidez: o trânsito urbano. A caixa está à altura, sobretudo num registo tranquilo, privilegiando a suavidade em detrimento de uma resposta mais imediata.
Quanto ao motor, mostrou-se pronto a reagir, em especial quando se escolhem os modos “Sport” ou “Smart Mode”. Este último vai alternando entre “Eco”, “Comfort” e “Sport” conforme interpreta o nosso estilo de condução.
No “Smart Mode”, o acelerador podia responder com um pouco mais de prontidão, mas no essencial entrega aquilo que a Renault promete: equilibrar desempenho e eficiência sem que o condutor tenha de estar constantemente a ajustar definições. Já em “Eco”, a resposta fica, para muitos, demasiado comedida.
E se o tema é eficiência, há um ponto em que a Renault merece destaque: a passagem de gasolina para GPL (e vice-versa) é impressionantemente bem calibrada. Quando vos digo que é impercetível, é mesmo. Se não fosse a indicação no painel de instrumentos, provavelmente só um medidor de emissões me faria notar a mudança entre combustíveis.
No comportamento, o Clio Eco-G mantém o caráter habitual do modelo: é confortável e ágil em cidade, revela capacidade dinâmica (e até algum divertimento em estradas mais sinuosas) e sente-se muito à vontade em autoestrada. Aliás, é precisamente aí que esta versão bifuel parece «peixe na água», muito por culpa da autonomia (muito) generosa, que pode chegar aos 1450 quilómetros.
Em consumos, neste ensaio inicial registou 6,5 l/100 km a gasolina e cerca de 7,7 l/100 km a GPL - valores que teremos de confirmar quando for possível testá-lo durante mais dias em Portugal.
No poupar é que pode estar o ganho para a Renault e não só
Além de um custo por quilómetro mais baixo face à gasolina, os automóveis a GPL continuam a ter um enquadramento fiscal especialmente interessante para empresas. É possível deduzir 50% do IVA na compra do veículo e nas despesas de abastecimento em GPL, somando-se ainda uma tributação autónoma inferior à de modelos equivalentes a gasolina ou gasóleo.
Tendo isto em conta - e existindo uma certa paridade de preço entre as versões bifuel e as variantes apenas a gasolina -, esta configuração do Clio tem argumentos sólidos para se afirmar como uma das mais vendidas da gama.
Ajuda, claro, o facto de o preço por litro do GPL continuar bastante abaixo do da gasolina (cerca de 0,916 €/litro à data que escrevo este artigo) e, tão ou mais relevante, de se mostrar mais resistente às oscilações de preço que se tornaram habituais.
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