À primeira leitura, seria natural jurar que o automóvel em destaque é o bem conhecido SEAT Toledo dos anos 1990: a mesma linha de perfil, óticas muito parecidas e uma silhueta impossível de confundir.
Só que este “Toledo” não saiu de Tarragona. As imagens mostram, na verdade, o primeiro carro da Chery, nascido na China. Sim, a mesma que se prepara para produzir carros em… Espanha.
Batizado Chery Fulwin (A11), trata-se de uma réplica quase milimétrica do Toledo 1L, com uma história onde se cruzam engenharia, política e uma dose generosa de atrevimento industrial. Apesar de parecer uma cópia descarada, o que está por trás não foi pirataria: foi um acordo legal. Ainda assim, a forma como este Toledo de alma chinesa chegou à estrada está longe de ser banal.
Como um Toledo espanhol se tornou num carro chinês
Quando, em 1999, o SEAT Toledo de primeira geração saiu de cena e foi descontinuado, tudo indicava que o seu percurso comercial tinha terminado. No entanto, do outro lado do mundo, estava prestes a começar outra vida.
A Chery - então uma marca chinesa recém-fundada - viu valor onde muitos só viam um modelo envelhecido. A empresa comprou à Volkswagen o pacote técnico indispensável para fabricar o Toledo: equipamento industrial, linhas de montagem, documentação de produção e o respetivo know-how.
Ou seja, não houve roubo de tecnologia; houve um entendimento formal e com base jurídica. A partir desse ponto de partida, a Chery materializou o seu primeiro automóvel: o Chery Fulwin (A11).
Corpo espanhol, coração britânico-americano
Mas havia um obstáculo importante: o contrato com a Volkswagen não abrangia as motorizações. E um carro sem motor não passa, no melhor cenário, de um bonito peso de papel. É aqui que entra Yin Tongyao, engenheiro e peça central na criação da Chery.
Tendo trabalhado com a Volkswagen, Yin reunia a experiência - e as ligações - certas. Foi assim que soube que a Ford se preparava para encerrar, no Reino Unido, uma linha onde ainda eram produzidos os motores CVH (1.6 l com 85 cv).
A resposta foi pragmática: a Chery adquiriu a fábrica, desmontou-a e transportou-a para a China. Tudo de forma discreta, fora do foco das autoridades.
Autorização? Sim, mas só depois do facto consumado
Ao contrário do panorama atual, em que é difícil acompanhar o número de marcas chinesas, na época o governo chinês controlava de forma rígida quantos construtores automóveis podiam operar no país.
Na prática, a Chery não tinha permissão oficial para existir. Ainda assim, isso não travou Yin Tongyao. Durante dois anos, o Fulwin (A11) foi produzido num verdadeiro limbo legal. Só em 2001, após negociações prolongadas, o Estado reconheceu formalmente a Chery como fabricante automóvel.
Com a homologação do A11 assegurada, a Chery colocou-o à venda na China como alternativa directa ao Volkswagen Jetta, que era fabricado localmente pela FAW-Volkswagen. E apresentou um argumento que se tornaria recorrente nas marcas do país: o preço. O Chery custava apenas 60% do valor do Jetta, tornando-se uma proposta extremamente competitiva.
Com o passar do tempo, os motores Ford deram lugar a unidades Tritec (desenvolvidas no Brasil por uma joint-venture entre a Chrysler e a Rover) e, mais tarde, aos motores Acteco, concebidos pela própria Chery em colaboração com a austríaca AVL.
O regresso à Europa
Depois de ter saído da Europa em 1999 com emblema SEAT, o “Toledo” voltou ao Velho Continente em 2007, agora como Chery. O regresso aconteceu apesar dos maus resultados em testes de colisão, algo comum nos modelos chineses dessa fase.
Entretanto, o mesmo automóvel foi vendido com uma coleção de nomes quase surreal: Fulwin, Fengyun, Windcloud, Cowin, entre outros. A variante Chery Cowin (A15), com pequenas diferenças visuais, chegou mesmo a coexistir com o Fulwin (A11) original. Ambos continuaram em produção até 2016.
Como curiosidade, quando parecia que a história da primeira geração do Toledo já não tinha mais por onde se estender, surgiu ainda outra reencarnação - desta vez na Rússia.
Em cooperação com a TagAZ, um construtor local, o antigo modelo da SEAT foi novamente adaptado, agora com a designação Vortex Corda. Fabricado entre 2011 e 2014, procurava afirmar-se como uma alternativa económica para o mercado russo.
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