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Uma única noite de ruído do tráfego pode stressar o sistema cardiovascular

Homem a dormir numa cama junto a janela, com aparelho de medição de pressão arterial numa mesa ao lado.

Uma única noite de ruído de tráfego típico de cidade pode provocar um esforço mensurável no sistema cardiovascular, mesmo em adultos saudáveis.

Num novo ensaio, as pessoas expostas a ruído de tráfego durante a noite apresentaram, de manhã, pior funcionamento dos vasos sanguíneos, uma ligeira subida da frequência cardíaca e uma pior qualidade de sono.

Em estudos populacionais, viver em zonas ruidosas tem sido associado a taxas mais elevadas, a longo prazo, de hipertensão e doença cardíaca. Estes resultados ajudam a sustentar uma ponte biológica plausível entre essas observações e o que acontece no organismo após uma noite de exposição.

As conclusões resultam de um estudo randomizado, duplamente cego e cruzado, realizado por investigadores do University Medical Center da Johannes Gutenberg-University, na Alemanha.

O objectivo foi perceber como o ruído de tráfego, em condições realistas, influencia o corpo ao longo de uma noite.

Uma única noite de ruído do tráfego

Para muitas pessoas, o ruído é sobretudo um incómodo. No entanto, o organismo pode interpretá-lo como um factor de stress, mesmo durante o sono.

Foi precisamente essa a hipótese testada: os investigadores quiseram saber se níveis de exposição que muitos residentes urbanos consideram “normais” conseguem, ainda assim, desencadear alterações detectáveis no coração e nos vasos sanguíneos.

“Mesmo uma única noite de ruído do tráfego rodoviário stressou o sistema cardiovascular. Não esperávamos encontrar alterações biológicas tão consistentes em pessoas expostas a níveis de ruído típicos de alguém a viver perto de uma estrada”, explicou o autor principal do estudo, Omar Hahad.

Os dados vão ao encontro de alertas de grandes entidades de saúde que defendem regras de ruído mais exigentes e reforçam a ideia de que o “silêncio” não é apenas uma questão de conforto - é também uma questão de saúde.

O que os participantes realmente vivenciaram

O estudo incluiu 74 adultos saudáveis, e cada participante passou por três noites distintas. Numa das noites, dormiram sem ruído adicional. Noutra, ouviram 30 eventos de ruído de tráfego. Na terceira noite, ouviram 60 eventos.

Um detalhe essencial é que o desenho foi duplamente cego: os participantes não sabiam qual a condição de cada noite e os investigadores que realizaram as avaliações de saúde na manhã seguinte também não. Esta abordagem procura reduzir enviesamentos e efeitos de expectativa.

Os sons não eram sinais artificiais. Tratava-se de gravações reais de tráfego, reproduzidas durante a noite nos quartos dos participantes.

Cada evento atingia um pico de cerca de 60 decibéis - aproximadamente a intensidade de uma conversa normal, com a diferença de ocorrer enquanto a pessoa tenta dormir. O cumprimento do protocolo foi acompanhado através do registo contínuo dos níveis sonoros.

Para limitar interferências, os participantes tiveram de manter rotinas muito controladas. Ao longo do estudo, abstiveram-se de álcool, cafeína, nicotina, substâncias recreativas e exercício físico intenso.

Assim, os resultados ficaram menos sujeitos a factores externos que também podem influenciar o sono, a frequência cardíaca ou o funcionamento dos vasos.

O que mudou no organismo

Na manhã seguinte a cada noite, os participantes realizaram várias avaliações, incluindo uma medida bem estabelecida da função vascular chamada dilatação mediada pelo fluxo.

De forma simples, esta avaliação mede a capacidade dos vasos sanguíneos se dilatarem quando o fluxo de sangue aumenta. Uma dilatação mais baixa sugere pior função vascular e está associada a maior risco cardiovascular.

A descida foi nítida e consistente. Após a noite silenciosa, a taxa de dilatação mediada pelo fluxo foi de 9.35%. Depois de 30 eventos de tráfego, foi de 8.19%. Após 60 eventos, desceu ainda mais para 7.73%.

À primeira vista, pode parecer uma variação pequena, mas na fisiologia cardiovascular este tipo de alteração é levado a sério - sobretudo por surgir após apenas uma noite.

O ruído também fez subir a frequência cardíaca. O aumento médio foi de 1.23 batimentos por minuto. Não é uma mudança dramática no momento, mas pode ter relevância se o organismo repetir este padrão, noite após noite, durante anos.

E, como seria de esperar, as pessoas notaram diferenças: a qualidade do sono e a sensação de descanso, auto-relatadas, diminuíram de forma significativa em todas as dimensões após as noites com ruído.

Os sinais no sangue pareciam stress

Além dos testes cardíacos e vasculares, os investigadores analisaram amostras de sangue para detectar alterações em proteínas associadas ao stress e à inflamação.

Foram observadas mudanças em vias relacionadas com a sinalização de interleucinas e com a quimiotaxia, em particular nos participantes que apresentaram os efeitos mais marcados ao nível da função vascular.

Isto é relevante porque sugere que o impacto não é apenas mecânico, do tipo “dormiste pior e os vasos reagiram”. Aponta para uma sinalização biológica mais profunda, compatível com activação de stress.

“Estas são vias biológicas-chave semelhantes às que encontramos alteradas pelo ruído em múltiplos estudos de exposição em ratos, o que significa que agora podemos explicar os patomecanismos moleculares induzidos pelo ruído em humanos com base em conhecimentos mecanísticos pré-clínicos”, explicou o co-autor Andreas Daiber.

Ou seja, os resultados em humanos estão em linha com o que a investigação laboratorial já vinha a indicar, e essa concordância torna o quadro global mais convincente.

Porque é que isto pode acumular ao longo de anos

Uma única noite má é uma coisa. A preocupação surge quando o corpo é repetidamente empurrado para uma resposta de stress, vezes sem conta. Mesmo que a pessoa não acorde totalmente, a fisiologia pode continuar a reagir.

“Mesmo quando estamos a dormir, os nossos corpos continuam a ouvir. A activação repetida das respostas de stress noite após noite pode ajudar a explicar porque é que as pessoas expostas a ruído de tráfego a longo prazo têm taxas mais elevadas de hipertensão e doença cardíaca”, explicou Hahad.

“Proteger o nosso sono ao combater a poluição sonora deve fazer parte da forma como pensamos a prevenção da doença cardiovascular em vilas e cidades por todo o mundo.”

Esta perspectiva encaixa no que a epidemiologia vem a reportar há anos: quem vive com ruído crónico de transportes tende a apresentar maior risco de hipertensão e de doença cardiovascular.

Este estudo não demonstra resultados a longo prazo, mas fornece um mecanismo plausível que pode ir acumulando efeitos com o tempo.

O que as pessoas podem fazer já?

O estudo não sugere que a solução seja apenas individual. Ainda assim, os investigadores referem algumas medidas práticas que podem reduzir a exposição.

“Reduzir a exposição ao ruído no quarto, quando possível, é uma medida razoável - por exemplo, mudar o quarto para longe da estrada ou comprar janelas com elevado isolamento”, observou Hahad.

“Tampões para os ouvidos também podem reduzir a carga de ruído, embora ainda não tenhamos evidência sólida de que protegem contra riscos cardiovasculares. Alterações no estilo de vida, como dietas mais saudáveis e exercício físico, também seriam protectoras.”

Segundo o autor, os maiores benefícios virão de mudanças estruturais que diminuam o ruído na origem.

“No entanto, o maior impacto positivo viria de medidas estruturais e sociais, como reduzir o tráfego à noite, usar pavimentos rodoviários mais silenciosos, melhorar o planeamento urbano e garantir um bom isolamento dos edifícios.”

Tratar o ruído como um verdadeiro factor de risco

Alguns investigadores defendem que o ruído de transportes deve ser encarado de forma semelhante a um perigo cardiovascular reconhecido, e não como um incómodo de fundo.

O autor sénior do estudo, Thomas Münzel, presidente da Taskforce de Ambiente e Sustentabilidade da Sociedade Europeia de Cardiologia, afirmou que o ruído de transportes deveria ser formalmente reconhecido como um factor de risco cardiovascular independente e não tradicional.

Apontou para evidência consistente que liga a exposição crónica à hipertensão, doença isquémica do coração, AVC e disfunção cardiometabólica, mesmo com níveis abaixo dos limiares regulatórios actuais.

Limitações do estudo

Este foi um estudo de curto prazo em adultos jovens e saudáveis, pelo que não permite saber exactamente como estas alterações se traduzem em risco ao longo de décadas numa pessoa mais velha, ou em alguém com doença cardíaca prévia.

Os investigadores querem também confirmar os resultados relativos às proteínas no sangue num estudo com uma amostra maior.

Ainda assim, a mensagem é difícil de ignorar: níveis de ruído que muitas pessoas consideram “normais” podem desencadear stress cardiovascular mensurável após apenas uma noite.

Se isto acontece uma vez, a pergunta óbvia é o que acontece após milhares de noites.

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