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Os melhores motores do mundo afinal são japoneses

Carro desportivo cinzento metálico com asa traseira grande em exibição numa sala moderna com decoração minimalista.

Um dia dou por mim com receio de sair à rua - e não é sem motivo. Depois de ter coroado o lendário PD130 da Volkswagen como o melhor motor Diesel do mundo, e de ter defendido - com argumentos bem sólidos, diga-se… - que os motores da FIAT são os melhores do planeta, volto ao tema com a parte III: afinal, os melhores motores do mundo são japoneses.

Então em que é que ficamos? Eu sei, eu sei - peço desculpa. Mas numa altura em que se fala tanto de eletrificação, qualquer pretexto serve para escrever mais umas linhas sobre motores de combustão.

Chamem-me antiquado, mas a verdade é esta: a tal tecnologia centenária que pôs o mundo a mexer, apesar de todos os obituários, insiste em não desaparecer. Mesmo quando fecham refinarias à bruta e depois atribuem a uma guerra a culpa de o combustível passar a custar mais de dois euros. Mesmo assim haverá quem vá ficar mais indignado com o título desta crónica…

Porque é que os motores japoneses carregam esta reputação

Há, contudo, outros motores com esse traço de resistência: aguentam porrada, não se queixam muito e teimam em não sair de cena. Falo, como toda a gente já percebeu, dos motores japoneses.

A fama de fiabilidade dos motores japoneses está para uma Toyota, Lexus, Honda, Suzuki ou Mitsubishi como a segurança está para a Volvo; como o luxo está para a Mercedes; os motores Diesel para a Volkswagen; ou as pingas de óleo no chão para a Land Rover.

E de onde vem esta reputação? Vem de todo o lado e ouve-se em todo o lado. Desde o avô que teve um Honda Civic que nunca lhe deu chatices, até ao tio-avô que conhece uma Toyota Hilux que terá feito um milhão de quilómetros sem trocar o óleo - já se sabe como são os mitos urbanos: "quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto".

Mitos à parte (e com os exageros no sítio certo), o facto é que os motores japoneses são fortes candidatos ao título de melhores motores do mundo porque entregam valor a sério. Falo com conhecimento de causa: fiz sete corridas de resistência - duas delas com 24h - ao volante de um Citroën C1 com motor Toyota/Daihatsu e não tive um único problema. Sempre de pé no fundo.

Qualidade, mercados globais e a lógica do “preparado para o pior”

Isso era dantes, dirão os mais pessimistas. Talvez não. Há pouco tempo publiquei aqui na Razão Automóvel o caso de um Toyota RAV4 que esteve submerso durante muito tempo e voltou a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Isto não acontece por magia: acontece por qualidade. Mas, no geral, de onde vem tanta qualidade nos motores japoneses?

Podem (e devem) juntar os argumentos que quiserem, a favor e contra, mas para mim um dos motivos principais tem a ver com o facto de os japoneses, regra geral, desenvolverem o mesmo modelo para vários mercados. Vejamos um exemplo extremo: uma Toyota Hilux tanto pode vir parar à Europa (onde o combustível e as estradas são, em regra, de qualidade), como pode ser destinada ao Médio Oriente, onde as estradas são o que são e a qualidade do combustível também. E o mesmo raciocínio aplica-se a uma Toyota Hilux, a um Suzuki Swift ou a um Honda HR-V.

Muitos destes carros acabam por ter componentes sobredimensionados. Ou seja: são pensados para o cenário mais duro. Para o pior - e, por arrasto, também para o melhor: turbos melhores, periféricos melhores e componentes melhores. Não é por acaso que alguns dos motores preferidos de quem gosta de tuning são precisamente japoneses.

Só não digo para sussurrarem Toyota 2JZ-GTE, Nissan RB26DETT, Mitsubishi 4G63 ou Honda K-Series ao ouvido daquele vosso amigo que vive para automóveis (ou do vosso mecânico) porque ficava estranho. Mas era certinho: arrepiavam-se. E por que razão é que estes motores toleravam aumentos de potência tão grandes?

“jishu-kisei”: o limite dos 280 cv e o que ficou por dizer

Aqui saímos do território das opiniões e entramos no dos factos. No final dos anos 80, o Japão enfrentava um problema que tinha pouco de engenharia e muito de política. As mortes na estrada voltavam a subir e o Governo começava a olhar com preocupação para a escalada de potência dos desportivos.

A indústria decidiu antecipar-se. Em vez de ficar à espera de uma lei que não controlava, os principais construtores japoneses chegaram a um entendimento informal: nenhum automóvel vendido no Japão podia anunciar mais de 280 cv. Alguns anos depois, aplicaram uma lógica semelhante às motas que ultrapassavam os 300 km/h. A minha gerações lembra-se bem do impacto da Suzuki GSX-R 1300 Hayabusa - claro que já tenho um artigo escrito sobre isso!

A isto chamavam jishu-kisei, autocontenção voluntária. Um acordo de cavalheiros entre Toyota, Nissan, Honda, Mazda, Mitsubishi e Subaru. Durante cerca de 15 anos, os catálogos repetiam o mesmo número mágico: 280 cv e velocidade máxima de 180 km/h.

O pormenor curioso é que o acordo limitava o que podia aparecer impresso nas brochuras, não aquilo que os engenheiros eram capazes de desenhar. E os engenheiros japoneses, como quaisquer engenheiros a sério, continuaram a fazer o que sabiam: desenvolver motores robustos, prontos para competição e com margens muito acima do que os números oficiais deixavam transparecer.

É por isso que o Nissan Skyline GT-R - R32, R33 ou R34 - declarou sempre os mesmos 280 cv. E bastavam uma ou duas alterações para se encontrar, pelo menos, mais 150 cv “escondidos”.

O papel das corridas e das margens de engenharia

Há ainda uma explicação técnica para esta aparente “generosidade” mecânica: competição. Muitos destes motores nasceram com as corridas em mente. O RB26DETT do Skyline foi concebido para homologação em Grupo A. O 4G63 dos Lancer Evolution tinha ligação ao WRC.

Para cumprir o acordo, bastava atuar onde era mais simples: mapas de ECU mais conservadores, menos pressão de turbo, ou restritores básicos na admissão. É por isso que nomes como 2JZ-GTE, RB26DETT, 4G63 ou Honda K-Series viraram lendas no mundo da preparação. Não são motores mágicos - são motores desenhados numa era em que a engenharia japonesa trabalhava com margem. Muita margem.

O acordo acabou por esmorecer a meio dos anos 2000, quando a própria indústria reconheceu aquilo que já era evidente: não existia uma relação direta entre a potência anunciada e a segurança nas estradas. Mas o legado ficou. Durante mais de uma década, a política travou os números e os engenheiros responderam com motores sobredimensionados, discretos e extraordinariamente resistentes.

Visto assim, talvez o título desta crónica nem seja tão polémico. Os melhores motores do mundo podem perfeitamente ser japoneses. Não por serem indestrutíveis - nada o é, tirando aquela Toyota Hilux da história do nosso tio-avô -, mas porque nasceram num contexto em que a engenharia teve de responder a necessidades muito concretas. Os europeus também já o fizeram. Basta dar um salto ao norte de África e ver o estado das jovens Peugeot 504 e 505 - as rainhas de África - ou como continuam os lendários Mercedes-Benz 190.

Podia continuar e falar dos motores híbridos da Toyota, ou dos 100% elétricos com garantia de um milhão de quilómetros (esses sim, acho eu, sem mudar o óleo), mas como disse logo no início, não me apetece falar de eletrificação, "ok"? Ainda assim, se gostam de uma boa novela sobre elétricos, acreditem que vale a pena dar um salto até este artigo.


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