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Como entrei no Grande Prémio do Mónaco com um Gibbs Aquada

Carro anfíbio preto a navegar sobre água azul com margem verde ao fundo.

“Bom dia, McLaren International.” “Olá. Queria saber se ainda têm bilhetes para o Grande Prémio do Mónaco?” Clique. Brrrrrrrrrrrrrr. Hmmm.

“Boa tarde, Jaguar Racing.” “Olá, têm algum bilhe...” Clique. Brrrrrrrrrrrrrr. Bolas.

“Está a falar com a Jordan Grand Prix. Lamentamos, mas neste momento não temos dinheiro para ter alguém a atender o telefone; deixe uma mensagem e...” Raios.

Está bem, eu admito: tentar desenrascar-me para entrar no evento de automobilismo mais prestigiado do ano, a poucos dias da corrida, não foi propriamente a ideia mais astuta. Mas tem de haver uma forma de conseguir entrar.

“Porque não entras a conduzir pelo porto?” atira alguém no escritório. Ah ah… espera lá. Se calhar não é assim tão disparatado.

Texto: Paul Walton
Imagens: Michael Bailie

O plano improvável para ver o Grande Prémio do Mónaco

“Boa noite, Gibbs Technologies.”

“Há alguma hipótese de me emprestarem um dos vossos carros?”, pergunto, em desespero. “Este fim de semana. Ou seja, daqui a poucos dias. Em Mónaco. Para ver o Grande Prémio.” Pausa. “Por favor?”

“Sem problema. O Sr. Gibbs já está lá e tem um estacionado no iate. Tenho a certeza de que vai gostar de o receber como convidado.” Ela disse mesmo “estacionado”?

O Gibbs Aquada fez ondas quando apareceu pela primeira vez no ano passado. A ideia de um carro anfíbio não é nova (há exemplos como o Jeep flutuante da Segunda Guerra - o Weep - e o Amphicar dos anos 60), mas aqui o especial é outra coisa: além de ser um desportivo de 209 km/h em terra, é também uma lancha a sério de 30 nós na água.

Só que, quando o mostraram ao mundo, foi na segurança controlada de uma albufeira. Eu, pelo contrário, vou metê-lo no Mediterrâneo para entrar, de mansinho, no porto de Mónaco e tentar garantir uma vista de bancada sobre a corrida. É um risco: será que aguenta, será que se afunda, será que vou ter de saltar mais depressa do que o Noé depois de uma das lhamas dizer “Ei, nós também queremos uma piscina no convés”? Sem bilhete, as opções não são muitas.

Ao volante do Gibbs Aquada: do asfalto à água

Encontro-me com representantes da Gibbs Technologies na manhã da corrida, nos arredores de Mónaco. Durante o Grande Prémio, o principado é território proibido: há mais estradas cortadas do que em Bagdade e, além disso, todos os ricos, quase ricos e aspirantes a ricos aparecem nos seus Ferraris, Lamborghinis e Gibbs Aquadas, entupindo tudo na ânsia de parecerem impecáveis. O plano, portanto, é aproximarmo-nos o máximo possível do circuito por estrada e fazer o resto pelo mar. Não é o tipo de frase que se ouve em Silverstone. Bem, a menos que estejas mesmo, mesmo perdido.

O Aquada é maior do que parece e lembra um Mazda MX-5 grande, até porque a Gibbs usa os faróis de formato pouco comum do Mazda. Ainda assim, é esguio e bem desenhado. E, apesar de ter um ar ligeiramente fora do habitual para um desportivo, não salta à vista que consiga transformar-se num barco - pelo menos até se olhar para baixo. Um dos segredos está no casco: por ter uma forma semelhante a uma quilha, permite que o Aquada entre em planeio, em vez de empurrar a água como o Amphicar, com a frente plana.

Entro no carro (não há portas porque… enfim, talvez isso se explique por si) e sento-me ao volante. Há espaço para três: o condutor vai ao centro, ao estilo McLaren F1, e os dois passageiros ficam um pouco mais atrás. Os comandos são os de um automóvel - volante, seletor da caixa automática de cinco velocidades, travão e acelerador - sem nada de ostensivamente náutico. O único detalhe que denuncia que este é um carro que não vai fazer glug-glug ao entrar no lago do vizinho é um botão no tablier com a indicação “água/terra”.

Ligo o V6 2,5 litros de origem Land Rover Freelander, montado em posição central, e sigo para o porto de Fontvieille, já ali ao lado de Mónaco. Apesar da posição central do motor, conduzir é perfeitamente natural. E, embora não seja um Lotus Elise (o carro é alto demais e a suspensão demasiado macia), continua a portar-se melhor do que qualquer barco que eu alguma vez tenha tentado “conduzir” em terra. Além disso, o V6 de 175 cv de série dá-lhe força de sobra; e, quando se enterra o pé no acelerador, a aceleração cola-nos ao banco. Mesmo que se mexesse como uma cabra em patins, era fácil perdoar-lhe - pela atenção que puxa. Embora seja fabricado em Nuneaton (que, em todos os sentidos, fica a uma distância enorme de Mónaco), consegue chamar mais olhos do que todos os supercarros residentes juntos.

“Sim, sim”, dizem eles todos, “um carro anfíbio!”

Chegamos ao porto e à rampa de acesso ao mar - é agora, ou afunda ou flutua. Desço com cuidado (sob uma coleção de olhares incrédulos) e, mal entro na água, sinto o carro a ganhar flutuabilidade. Carrego então no botão “água/terra”. O Aquada, ao perceber que está à deriva, não só recolhe as rodas como também ajusta o equilíbrio na traseira, deixando a frente (ou proa) mais levantada.

O calcanhar de Aquiles de outros anfíbios são as rodas, porque têm a aderência de um bloco de betão. No Aquada, elas sobem para dentro do casco por meio de um atuador hidráulico e, como as transmissões dianteiras são desacopladas do motor, a potência é desviada para um impulsor montado atrás. Um bocal de direção, ligado ao volante normal, orienta o jato de água. A passagem a barco é tão suave que quase não se percebe - só uma luz no tablier indica que a transformação terminou. “Meu Deus!”, ouço da margem. É tudo muito James Bond.

A entrada pelo porto e o encontro com Alan Gibbs no Senses

Avanço devagar, com medo de encostar aos iates gigantes à minha volta - isso seria mais Norman Wisdom do que Pierce Brosnan. No porto o limite é de 3 nós, mas, como o Aquada é guiado por um jato que precisa de potência para manobrar, é preciso acelerar para o orientar. Parece contraintuitivo, e há um ou dois momentos em que eu carrego em pânico no travão, a caminho de algo sólido, antes de pisar o acelerador e virar o volante - e o Aquada roda num instante.

Por fim, chegamos ao mar aberto. O dia está lindíssimo, mas aquelas ondas parecem grandes demais. E escuras. E assustadoras. Ainda assim, quando levo o motor às 5.000 rpm, o carro entra em planeio e vou à caça dos 30 nós.

Conduzir o Aquada no mar assemelha-se a fazer todo-o-terreno, porque estou sempre a corrigir a direção: ora a corrente me tira da rota, ora eu tento escolher o caminho mais curto e “macio” por cima das ondas. Algumas vezes falho o cálculo e, quando a proa mergulha, levanta uma quantidade de água salgada digna de umas termas romanas, que vem parar sem cerimónia ao para-brisas e a mim. Tirando o facto de eu ficar encharcado, o pequeno carro sai-se muito bem - e nunca, nem uma vez, dá aquela sensação de que vai virar.

De comboio ou de carro, teria perdido quase uma manhã até chegar ao principal porto de Mónaco, o Condamine. Pelo mar, faço-o num instante. E mesmo a tempo, porque daqui já se ouvem os carros a encaminharem-se para a grelha. O porto está mais congestionado do que a M25 numa sexta-feira de feriado prolongado, por isso vou avançando com paciência até ao meio, apesar de causar mais alvoroço do que se o Michael Schumacher batesse no túnel (mas qual seria a probabilidade disso acontecer, não é?). Pronto: cheguei. Passei ao lado do Bernie Ecclestone e do Automobile Club de Monaco e, mesmo assim, estou no centro do acontecimento onde consigo ver… nada. Zero. Infelizmente, as paredes do porto são demasiado altas e os Fórmula 1 demasiado baixos para eu vislumbrar o que quer que seja. Mas parte de ir a uma corrida é o ambiente. E, apesar de estar dentro do porto e não apenas perto dele, absorvo a atmosfera como se estivesse na tribuna privada do Príncipe Rainier a deitar abaixo Bollinger.

Não demora até as pessoas nos iates repararem. Cabeça a cabeça, iate a iate, bancada a bancada, a atenção deixa de estar no BAR do Sato a “grelhar” e passa a estar num carro a flutuar, comigo a sorrir ao volante.

Com a corrida terminada, está na hora de ir embora. Normalmente, este é o momento de uma batalha longa e penosa para sair do circuito. Hoje, não. Engato a posição de condução, afundo o acelerador e, com o volante bem virado, o Aquada dá meia-volta sobre si mesmo, 180 graus. Assim que se apanha o jeito de usar a potência em espaços mínimos, percebe-se como o carro é incrivelmente manobrável.

Pedem-me, depois de eu acabar de me exibir, que devolva o carro ao iate do Sr. Gibbs.

“E como é que eu sei qual é o dele?”, pergunto.

“É óbvio”, respondem. “É o que tem o helicóptero estacionado em cima e a doca seca atrás, onde vai estacionar.”

“Ah”, digo eu. “Claro.”

Já no mar, avisto um iate enorme que, de facto, tem um helicóptero em cima. Sinto-me um extra de O Espião que me Amava enquanto acelero em direção àquele monstro, ainda mais quando vejo uma rampa a descer por baixo da plataforma do helicóptero - uma de duas a bordo. “Os meus amigos precisam de sítio para estacionar”, explica-me mais tarde o Sr. Gibbs. Engraçado: os meus limitam-se a usar a entrada de casa. Aproximo-me, baixo as rodas, carrego no motor e, mal os pneus tocam na rampa, a tração volta e o Aquada passa novamente a ser um carro. Só depois descubro que aquilo é uma doca seca para o bote auxiliar do iate - o Nelson de 12,8 m - que o Sr. Gibbs cobriu (ou melhor, a sua equipa cobriu) com tábuas para que eu pudesse entrar e sair a conduzir.

Com um cenário destes, eu estava à espera de um vilão à James Bond (“Não, Sr. Walton, espero que seque!”), mas o Sr. Gibbs é um neozelandês educado, na casa dos 60, que não tem nada do ar típico de multimilionário. Claro que, tirando o facto de não se parecer comigo, também não faço ideia de como “deve” parecer um milionário; ainda assim, o seu jeito descontraído não seria o meu palpite. Sentados no 76.º maior iate do mundo, o Senses, ele transmite a tranquilidade de alguém totalmente à vontade consigo próprio.

A ideia do Aquada nasceu na sua quinta, na Nova Zelândia: como a margem do lago era muito comprida, ele não tinha paciência para andar a rebocar um barco. Depois de desenvolver uma forma de recolher as rodas mantendo a ligação ao veio de transmissão, Alan mudou-se para Detroit em 1997 e reuniu uma pequena equipa de engenharia para aperfeiçoar o veículo anfíbio definitivo.

Dois anos depois, Neil Jenkins - um engenheiro britânico do sector automóvel que trabalhou com a Jaguar e a Aston Martin - ouviu falar do projecto e convenceu Alan a mudar-se para o Reino Unido.

“Para um carro de baixa produção, feito em compósito, o Reino Unido é o sítio certo”, diz Neil. Compraram instalações em Nuneaton e, quatro anos mais tarde - após muito desenvolvimento - o carro foi apresentado ao público. Os dois têm planos ambiciosos para a tecnologia HSA (Anfíbio de Alta Velocidade) e o Aquada é apenas o primeiro passo.

“Eu prevejo que, daqui a 20 anos”, diz Alan, “um quinto de todos os veículos será anfíbio.” Ele não está a brincar, e eu evito um comentário mais esperto porque: a) ele é maior do que eu, b) estamos a uma bela altura e c) se alguém tivesse dito o mesmo sobre o mercado dos 4x4 há 30 anos, tu também terias achado absurdo.

Sim, é um brinquedo de rico (embora ele também tenha anunciado que o preço original de £150 mil será cortado para metade), mas, como este sistema funciona tão bem, talvez possa vir a ser aceite como parte do mercado automóvel.

O tempo aperta e eu tenho de ir para o aeroporto, embora o meu dia à Bond ainda não tivesse acabado. “Se quiser, damos-lhe boleia no helicóptero”, diz o Sr. Gibbs. Quando levantamos voo, olho na direção de Mónaco, depois para baixo, para o iate, para o carro com que mais me diverti de sempre, e por fim para o próprio Sr. Alan Gibbs, a pensar ‘que sorte do caraças’, antes de desaparecer no céu.


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