A proposta pode soar arrojada, mas assenta em argumentos técnicos: Portugal poderá chegar a produzir combustíveis sustentáveis a um custo inferior ao do gasóleo, desde que avance com a instalação de parques eólicos no mar. A leitura é do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em declarações exclusivas ao Expresso, baseada num estudo recente sobre a capacidade nacional para produzir hidrogénio verde e combustíveis de baixo carbono.
A lógica descrita para o país é direta: a eletricidade produzida ao largo alimentaria electrolisadores em terra para gerar hidrogénio verde, que depois serviria de matéria-prima a combustíveis avançados como a amónia, o metanol ou o HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado (OVH), também conhecido como “diesel verde”) - combustíveis sintéticos.
Eólica ao largo: mais horas de produção e eletricidade mais barata
O estudo sublinha uma vantagem competitiva determinante: as turbinas instaladas no mar português poderão funcionar entre 4200 e 4500 horas por ano, um valor bastante superior ao de países como a Dinamarca ou a Alemanha. Essa diferença tem impacto direto no custo da eletricidade usada nos electrolisadores e, por arrastamento, no preço final dos combustíveis.
“É muito importante o número de horas que as unidades de eletrólise podem operar à sua máxima capacidade ao longo do ano, usando apenas electricidade eólica ao largo. Enquanto os custos de investimento não variam substancialmente de país para país, as horas de funcionamento de uma turbina no mar de Portugal são diferentes dos da Alemanha ou Dinamarca. E podem tornar-nos mais competitivos”, disse Sofia Simões, coordenadora da unidade de economia de recursos do LNEG ao Expresso.
Custos dos combustíveis: HVO em vantagem face ao gasóleo
Segundo o LNEG, a produção de HVO com eletricidade eólica ao largo surge como a alternativa mais competitiva, com custos estimados entre 63 e 110 €/MWh. Este intervalo fica abaixo do preço médio do gasóleo em 2024, situado entre 158 a 172 €/MWh.
Para além do HVO, a amónia verde também poderá alcançar competitividade internacional. Já o metanol, o hidrogénio liquefeito e o combustível sustentável para a aviação mantêm custos superiores. Ainda assim, o LNEG realça que, no futuro, a energia solar e a eólica ao largo poderão funcionar de forma complementar, devido às diferenças naturais nos respetivos perfis de produção.
Pedro Marques, investigador do INEGI (Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial), já tinha tratado este tema num dos nossos Auto Talks sobre a produção de combustíveis sintéticos sustentáveis em Portugal. Recorde o que foi falado:
Leilão é decisivo para avançar com a eólica ao largo e o hidrogénio verde
Apesar do potencial identificado, o avanço depende do leilão para os primeiros 2 gigawatts (GW) de energia eólica ao largo, que ainda não foi lançado. A Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) afirma que o procedimento está a ser preparado, mas aponta o arranque apenas entre o final de 2025 e o início de 2026.
Entre as zonas estudadas surge Leixões, onde se prevê um parque eólico ao largo de 1 GW operacional até 2035, com 500 MW afetos à produção de hidrogénio. Uma parte deste gás renovável poderá ser enviada para a Alemanha através da futura rede europeia de hidrogénio, enquanto a amónia e outros combustíveis seriam expedidos por via marítima a partir de Sines.
“Sabemos que Portugal possui uma extensa zona costeira e um elevado potencial eólico ao largo. Temos sidos pioneiros a nível mundial na área da energia eólica ao largo flutuante. Procurámos analisar como podemos aproveitar esse potencial e acrescentar valor ao país”, concluiu Sofia Simões.
Como referiu o Expresso, os primeiros leilões deverão incluir áreas para instalar 2 GW de capacidade eólica ao largo, com um objetivo de longo prazo de 9,4 GW. Além de Leixões, estão previstos parques em Viana do Castelo (1 GW) e na Figueira da Foz (2 GW).
Cadeia de valor em Portugal e exigências regulatórias
O estudo assinala que a cadeia de valor nacional está a ganhar escala - o LNEG identifica pelo menos 130 empresas ligadas ao hidrogénio e outras 140 associadas ao setor eólico ao largo. Ainda assim, alerta que uma verdadeira “economia do hidrogénio” depende de estabilidade regulatória e de um calendário transparente para os leilões.
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