Silêncio e conforto em andamento
Tudo no novo Audi A8 parece feito para não levantar a voz. Em auto-estrada, mais do que “ir” ele desliza, como se se espalhasse sobre o asfalto. Do motor chega apenas um ronronar discreto e hipnótico, enquanto a nova caixa automática de oito velocidades percorre as relações com uma suavidade quase musical. O ruído do vento praticamente desapareceu; o som de rolamento baixou para um sussurro distante. Até a suspensão passa despercebida: pode-se sentir uma irregularidade mais agressiva, mas dificilmente se chega a ouvi-la. É um casulo de serenidade, com uma isolação cuidada e com um toque claramente de segmento de luxo.
Essa sensação mantém-se quando se começa a apertar o ritmo. A suspensão pneumática funciona como um filtro muito sério: mesmo a mexer no sistema Audi ‘drive select', que altera a firmeza do amortecimento, a resposta do acelerador e a estratégia da caixa, o A8 continua macio e absorvente. Todos os exemplares que conduzimos tinham tracção integral quattro e, embora a atitude dominante seja de subviragem dócil, a opção pelo diferencial desportivo permite até puxar por um leve apontamento de sobreviragem, à medida que o binário é enviado para a roda exterior.
Habitáculo e interfaces (Multi Media Interface)
Por dentro, o A8 apresenta-se como um grande exercício de rigor “alfaiatado”: uma arquitectura limpa, recheada de tecnologia, sem cair na tentação de um festival de botões nem num labirinto de funções coladas em submenus comandados por um rato de computador com ares de importância. Existe um ecrã Multi Media Interface que emerge do tablier e que se opera com um comando rotativo simples, de rodar e clicar.
A selecção de mudanças faz-se através de um selector muito bem desenhado, com ar de manete de potência de avião; além disso, serve de apoio relaxado para o pulso quando se vai a mexer nas funções em andamento. Os bancos ajustam-se e movimentam-se de formas que o corpo, por vezes, nem parece ter previsto. Nos primeiros 30 a 40 minutos, o instinto é ficar sentado, a experimentar e a carregar em tudo.
Motores e consumos do Audi A8
No lançamento no Reino Unido, estarão disponíveis três motorizações: dois V8 de 4,2 litros - um a gasolina com 370 bhp e um Diesel com 350 bhp e 800 Nm - e um V6 Diesel de 3,0 litros com 250 bhp, mais racional, que deverá representar 70 a 80 por cento das vendas por lá, ajudado por um consumo combinado muito forte de cerca de 6,6 l/100 km.
Mais tarde, ainda este ano, chegará outra versão do V6, orientada para a parcimónia e apenas com tracção dianteira, com umas pouco credíveis emissões de 159 g/km de CO₂ e cerca de 6,0 l/100 km no ciclo combinado, mantendo ainda assim pouco mais de 200 bhp. E isto num grande luxo que, mesmo “verde”, continua capaz de fazer inveja ao vizinho.
Curiosamente, a melhor escolha do trio é o V6 de série: um motor novo, com sistema de injecção revisto. O que não significa, de todo, que seja menos impressionante. Os números falam por si, e vale a pena repeti-los: 250 bhp, 549 Nm, 0–100 km/h em 6,6 segundos, 249 km/h e cerca de 6,7 l/100 km. Além disso, em estrada sinuosa, revela-se mais intuitivo do que qualquer um dos V8, que parecem um pouco mais pesados: o V6 dá uma sensação de maior leveza, mais agilidade e um contacto ligeiramente mais directo.
Os dois V8 são excelentes, mas soam mais “densos” e talhados para devorar vias largas e rápidas, à moda alemã. Dito isto, para cruzar a Alemanha a 209 km/h, o V8 4,2 litros cheio de binário é mesmo um devorador de Autobahn.
Tecnologia e ajudas à condução
No capítulo da tecnologia, o A8 promete dar à Mercedes Classe S uma luta bem séria. É possível encomendar o habitual luxo de topo - câmaras de visão nocturna, sistema de som Bang & Olufsen de 1 460 W, bancos com massagem e por aí fora -, mas há também novidades capazes de corar qualquer “geek”.
Passa a existir um painel táctil com reconhecimento de escrita manual para programar funções como o sistema de navegação; há notícias e meteorologia da Google transmitidas directamente para o carro; e ainda a possibilidade de transformar o automóvel num ponto de acesso WLAN móvel. Junta-se a isso um avançado sistema anti-colisão Audi ‘pre-sense', capaz de verificar se um veículo está a sinalizar para se meter à frente e de ajustar o cruise control adaptativo em conformidade.
Melhor: mais para o fim do ano, um módulo permitirá que a navegação “converse” com a caixa, com o cruise control adaptativo e com os faróis LED (totalmente em LED e direccionais), dando ao A8 capacidade para decidir como reagir perante perigos que se aproximam. Olá, HAL.
O que falha: estilo e direcção
Os pontos menos conseguidos são raros. O mais evidente poderá ser que o novo A8 não tem o impacto visual imediato dos seus antecessores. Ao vivo melhora, mas há pormenores que não encaixam totalmente. Veja-se os faróis: gosto de ver iluminação com personalidade, mas a barra luminosa alojada no interior do farol do A8 não lhe assenta bem. Com as luzes apagadas, o A8 tem um ar ligeiramente carregado, mas simpático; com a barra acesa, a frente parece mais “apertada” e mal-humorada.
E embora, ao ver o carro “no metal”, se note mais textura nas superfícies, a fluidez geral tem demasiado ADN Audi genérico. Visto de trás, a alguma distância, isto parece mesmo um A4. Não é o ideal.
Há ainda a direcção dinâmica, que ganha peso de forma estranha a meio das curvas, muda a relação da cremalheira e, no conjunto, parece tão honesta como um Rolex de banca de feira. Pode eliminar reacções indesejadas e dar uma direcção consistentemente filtrada, mas sabendo que o novo A8 até se deixa atirar com eficácia, este detalhe acaba por lhe cortar alguma liberdade.
No balanço final: o desenho não conquista logo à primeira, mas o resto do carro tem polimento suficiente para merecer atenção - ou, pelo menos, uma segunda oportunidade enquanto percebemos se vamos aprender a gostar daquela cara peculiar.
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