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Ativos do Boavista Futebol Clube em leilão por cerca de €39 milhões

Homem de fato a analisar estádio de futebol vazio com planta de arquitetura e documento na mão.

Leilão eletrónico dos ativos do Boavista Futebol Clube

O Boavista Futebol Clube colocou em leilão um conjunto de ativos que inclui o estádio, o edifício da residência para atletas, um complexo desportivo com campo de treino e quadras de ténis, um terreno com viabilidade de construção para 130 apartamentos e oito lojas, além de dois apartamentos no condomínio do Bessa. O valor-base global da alienação ronda os €39 milhões.

A venda decorre num leilão eletrónico conduzido pela Leilosoc Worldwide, que arrancou na passada segunda-feira (27 de abril) e tem fecho marcado para 20 de maio. A operação foi autorizada pela administradora de insolvência, Maria Clarisse Barros, com o objetivo de amortizar dívidas a credores superiores a €150 milhões.

Segundo Rute Monteiro, diretora de operações da Leilosoc, disse ao Expresso que “já foram consultados por representantes de alguns investidores interessados sobre os pormenores da venda”.

Importa ainda notar que, nos termos previstos no Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas (CIRE), estes ativos podem ser transacionados até 85% do respetivo valor-base, o que equivale a um desconto máximo de 15%.

O leilão eletrónico, realizado pela Leilosoc Worldwide, está aberto e termina a 20 de maio

Num contacto com consultoras que atuam no mercado imobiliário do Porto, a perceção partilhada é a de que, nesta fase, ainda não há potenciais investidores claramente identificados. Ainda assim, há quem antecipe que este dossiê possa atrair o interesse de investidores que, nos últimos anos, têm apostado na compra de clubes, incluindo alguns nacionais.

Duarte Nuno Rodrigues, consultor imobiliário, afirma que a “informação que tenho é de que existem interessados”, embora chame a atenção para “a complexidade de todo este processo”.

Potencial do Estádio do Bessa e do lote 2

Para Filipe Santos, diretor de desenvolvimento de negócios da Alma Development, promotor residencial, “o lote 2 (complexo desportivo) apresenta-se como um ativo de maior valor imediato”. É também neste lote que se encontra o único terreno com potencial construtivo, junto do campo de jogos e com acesso pela Rua Tenente Valadim.

O mesmo responsável acrescenta que o destino do estádio (lote 1) não deve ser encarado apenas como um risco jurídico, mas igualmente como uma oportunidade de transformação de grande escala. “A cidade beneficiaria imenso com a conversão do recinto num projeto de mix-use, tirando partido da proximidade ao metro, do nó de Francos e da Avenida da Boavista para integrar hotelaria, escritórios, retalho e giná­sios num hub urbano vibrante”, refere.

O Estádio do Bessa situa-se nas imediações da Avenida da Boavista, atualmente uma das zonas da cidade onde a construção de empreen­dimentos residenciais - direcionados a um segmento alto - cresceu de forma expressiva, ocupando quase todos os terrenos ainda disponíveis.

Com preços médios a partir dos €6 mil por metro quadrado, os apartamentos T2 colocados à venda nesta área estão, em regra, entre os €500 mil e os €700 mil.

Autarquia não vai interferir na venda

O anúncio do leilão dos ativos gerou, nos últimos dias, várias reações de atuais e antigos dirigentes do clube e de pessoas ligadas ao futebol. Essas intervenções procuraram pressionar a autarquia do Porto a assumir uma posição sobre a venda, defendendo que deveria avançar para a compra e reconversão do recinto desportivo do Bessa num equipamento municipal.

Numa nota enviada ao Expresso, a Câmara Municipal do Porto afirma estar a acompanhar com preocupação a situação do Boavista Futebol Clube. Ainda assim, sublinha que, estando em curso um processo de insolvência sujeito aos trâmites legais, “não deve, nem pode, interferir num processo desta natureza, condicionando o seu regular desenvolvimento ou impedindo o normal funcionamento do mercado”. Acrescenta que uma eventual participação do município no leilão “estaria sempre sujeita à prévia aprovação dos órgãos autárquicos”. Com base nesse enquadramento, o município avisa que “não participará no leilão associado ao processo”.

PDM salvaguarda equipamentos

Uma parte dos ativos em causa está registada no Plano Diretor Municipal (PDM) do Porto como equipamentos desportivos, o que obriga à manutenção do uso atual e limita intervenções a obras de renovação. Este enquadramento abrange o recinto desportivo, os equipamentos integrados no estádio (como o estacionamento e a residência de estudantes), bem como o campo polidesportivo, o campo de treino, as quadras de ténis e outras infraestruturas associadas ao complexo desportivo.

Ainda assim, o pacote inclui um terreno com dois mil metros quadrados - com possibilidade de 14 mil metros quadrados de construção acima do solo - e, num “cenário hipotético” apresentado pela leiloeira, esse espaço poderá viabilizar um projeto residencial com 130 apartamentos (75 T1 + 30 T2 + 25 T3) e oito lojas.

A Câmara Municipal do Porto diz estar a acompanhar com preocupação a situação vivida pelo Boavista

Lotes, valores-base e composição dos ativos

A alienação está organizada por lotes distintos, com valores-base próprios. Os lotes 1 e 2 podem ser licitados em conjunto ou, em alternativa, cada um pode ser adquirido separadamente.

O Estádio do Bessa, correspondente ao lote 1 - o de maior valor - apresenta um valor base de €37,8 milhões (valor mínimo de venda de €32,9 milhões). Inclui o recinto com 11 pisos e área total de 77.865,50 m2, um stand automóvel em funcionamento e um espaço de restauração ao nível do rés do chão (encerrado). Integra ainda a residência para atletas, edifício contíguo ao estádio com três pisos e área total de 4500 m2, bem como três pisos de esta­cionamento (área total de 4573 m2).

Já o lote 2 tem um valor base de €6,7 milhões (€5,9 milhões de valor mínimo) e uma área total de 21.144 m2. Neste lote estão o campo polidesportivo, campos de treino/quadras de ténis, o edifício bar/bal­neários, o logradouro/parque e os acessos.

Além destes, o leilão inclui dois apartamentos inseridos no empreendimento residencial do Bessa, contíguo ao estádio: um T1 duplex com 154 m2 de área bruta, com valor base de €567 mil (lote 3), e um T2 com lugar de garagem e arrumos, com 113 m2 de área bruta e valor-base de €560 mil (lote 33).

A situação do Boavista agravou-se recentemente com o falhanço da reestruturação financeira e com a não aprovação do Plano Especial de Revitalização (PER) da SAD, circunstância que impediu a inscrição nas ligas profissionais na época de 2025/2026.

O estádio, inspirado nos recintos ingleses, destaca-se pela grande proximidade ao relvado e pela elevada inclinação das bancadas. Tem capacidade para 28.263 espectadores e é o 10º maior espaço desportivo nacional. Foi alvo de obras de remodelação, sobretudo para ampliar a lotação, com o objetivo de integração no calendário do Euro 2004.

Na mesma nota, a autarquia do Porto realça que a sua principal preocupação é garantir a continuidade da prática desportiva e da formação de centenas de jovens atletas que utilizam diariamente estas estruturas.

E acrescenta que, “sendo esse o interesse público prioritário que orien­ta a posição municipal, o município está totalmente disponível para dialogar com as partes envolvidas e para ajudar a encontrar soluções que assegurem a continuidade da atividade desportiva e formativa, evitando prejuízos para os jovens, para as famílias e para a cidade”.

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