Depois de um percurso discreto como piloto - em que o melhor resultado foi a vitória na sua categoria nas 24 Horas de Nürburgring de 1994 - Toto Wolff tornou-se, hoje, um dos rostos mais reconhecíveis e influentes da Fórmula 1.
Enquanto chefe de equipa e diretor executivo da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, Wolff, atualmente com 49 anos, é visto por muitos como um dos grandes líderes da história da Fórmula 1. Não fosse ele um dos principais arquitetos dos sete títulos mundiais de construtores consecutivos da formação das flechas prateadas, um feito sem paralelo em mais de 70 anos da modalidade.
Numa entrevista exclusiva à Razão Automóvel, conversámos com o gestor austríaco sobre temas tão diferentes como o futuro da Fórmula 1 - que, na sua perspetiva, passará por combustíveis sustentáveis - e o papel do desporto automóvel para os construtores.
Houve também espaço para assuntos mais delicados, incluindo o arranque de época abaixo do esperado de Valtteri Bottas, o futuro de Lewis Hamilton na estrutura e o momento da Red Bull Racing, que Toto entende estar em vantagem.
E, naturalmente, falámos do Grande Prémio de Portugal que se aproxima - afinal, foi esse o motivo que levou a esta conversa com o “patrão” da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, detentora de um terço da equipa em partes iguais com a INEOS e a Daimler AG.
Toto Wolff e a Mercedes-AMG Petronas F1 Team: as bases do sucesso
Razão Automóvel (RA) - Criou uma das equipas mais bem sucedidas da história do desporto, numa categoria onde normalmente existem ciclos e as equipas quebram ao final de algum tempo. Qual é o grande segredo por detrás do sucesso da equipa Mercedes-AMG Petronas?
Toto Wolff (TW) - O que leva um ciclo a terminar? O que aprendi com o passado é que, muitas vezes, acontece quando as pessoas deixam cair a motivação e a energia. A atenção dispersa-se, as prioridades mudam, há quem queira tirar partido do sucesso e alterações regulamentares grandes e inesperadas podem apanhar-te exposto, dando vantagem a outros.
Foi algo que debatemos durante muito tempo: o que é que tem de se manter inabalável? Se pensares num casino, por exemplo, o facto de sair vermelho sete vezes seguidas não significa que à oitava tenha de sair preto. Pode voltar a sair vermelho. Por isso, todos os anos, todas as equipas voltam a ter uma oportunidade real de vencer. E não por causa de um qualquer “ciclo” misterioso.
Os ciclos, na verdade, nascem de fatores como as pessoas, as competências e a motivação. E nós, até aqui, temos conseguido preservar isso. Ainda assim, nada disto te garante que ganhas todos os campeonatos em que entras. Isso não existe no desporto - nem em qualquer outro negócio.
RA - É fácil manter toda a gente motivada, ano após ano, ou é necessário ir criando pequenos objetivos ao longo do tempo?
TW - Manter a motivação de forma consistente não é simples, ano após ano, por uma razão óbvia: sonhas com a vitória e, quando a consegues, o impacto é enorme. Mas todos somos iguais: quanto mais tens, menos especial parece. Por isso, acho essencial lembrarmo-nos, sempre, do quão extraordinário isto é. E nós tivemos sorte no passado.
Ao longo dos anos, fomos ‘acordados’ pelas derrotas. E, de repente, pensas: eu não gosto disto, não gosto de perder. Dói muito. E isso obriga-te a refletir sobre o que tens de fazer para sair dessa sensação negativa. E a única resposta é voltar a ganhar.
Estamos bem colocados, mas quando me ouço dizer isso, a minha reação imediata é: ok, já estás outra vez a achar que somos os ‘maiores’ - e não somos. Tens de te recordar de que nada é garantido, porque os outros também estão a trabalhar bem.
RA - Neste arranque de temporada a Red Bull Racing está a mostrar-se mais forte do que nos anos anteriores. A somar a isso, Max Verstappen está mais maduro do que nunca e o “Checo” Pérez é um piloto rápido e muito consistente. Acha que esta pode ser a época mais difícil dos últimos cinco anos?
TW - Já tivemos anos realmente exigentes. Recordo, por exemplo, 2018, com a Ferrari e com o Vettel. Mas, neste início, vejo um carro e uma unidade motriz que parecem superiores ao conjunto da Mercedes. Isso não tinha acontecido no passado.
Houve corridas em que não fomos os mais rápidos, sim, mas agora, no arranque do campeonato, percebemos que são eles que estão a impor o ritmo. É algo que temos de alcançar - e depois superar.
RA - É numa altura destas, onde não têm o carro mais rápido, que o talento de Lewis Hamilton pode fazer novamente a diferença?
TW - Os pilotos contam muito quando tens dois carros praticamente equivalentes. Do outro lado, eles têm um piloto jovem, em ascensão, e que é claramente um talento excecional.
E depois existe o Lewis, heptacampeão do mundo, recordista de vitórias, recordista em posições da pole, com o mesmo número de títulos do Michael Schumacher, e ainda assim mantém-se forte. Portanto, é uma luta épica.
RA - A temporada não começou bem para Valtteri Bottas e ele parece estar cada vez mais longe de afirmar-se. Acha que ele está cada vez mais a acusar a pressão de ter que ‘mostrar serviço’?
TW - O Valtteri é um piloto muito competente e uma peça relevante dentro da equipa. Mas, nos últimos fins de semana, não esteve ao nível habitual. Precisamos de compreender porque não estamos a conseguir dar-lhe um carro com o qual se sinta confortável. Estou a tentar perceber as razões e encontrar forma de lhe dar as ferramentas necessárias para ele ser mais rápido - algo que ele consegue.
RA - Voltando agora a 2016, como foi gerir a relação entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg? Foi um dos maiores desafios da sua carreira?
TW - Para mim, o mais complicado foi o facto de eu ser novo no desporto. Mas gostei do desafio. Eram duas personalidades e dois carácteres muito fortes, e ambos queriam ser campeões do mundo. Em defesa do Lewis, nesse ano não lhe demos o pacote mais robusto. Teve várias falhas no motor, incluindo uma quando liderava na Malásia, que poderia ter mudado o desfecho do campeonato.
Mas penso que, nas últimas corridas, não estivemos bem. Tentámos evitar um fim negativo e mantê-los separados, mas isso não era necessário. Devíamos tê-los deixado simplesmente correr e lutar pelo título. E se acabasse numa colisão, então acabava numa colisão. Fomos demasiado controladores.
RA - A renovação de contrato com o Lewis Hamilton apanhou muita gente de surpresa por ser apenas por mais um ano. Foi este o desejo de ambas as partes? Isto quer dizer que se Hamilton ganhar uma oitava vez este ano esta pode ser a sua última temporada da carreira?
TW - Isso foi importante para os dois lados. Para ele, era essencial manter essa margem para decidir o que pretende fazer com a carreira. Sete títulos mundiais, igualando o recorde do Michael Schumacher, é algo incrível. Mas, para tentar o recorde absoluto, penso que era importante ele ter a liberdade mental para escolher o caminho a seguir.
Dito isto, entre lutar por um eventual nono título ou procurar a desforra caso não consiga ganhar este, acredito que ele ficará connosco durante mais algum tempo. E nós queremos tê-lo no carro. Há muito mais para conquistar.
Regulamentos, teto orçamental e o futuro da Fórmula 1
RA - Com o teto orçamental já em vigor em 2021 e que vai diminuir gradualmente ao longo dos próximos anos, e sendo a Mercedes-AMG Petronas uma das maiores equipas, será também uma das mais afetadas. Que tipo de impacto acredita que isto vai ter na competição? Vamos ver a Mercedes-AMG a entrar noutras categorias para redistribuir os seus funcionários?
TW - É uma excelente pergunta. Acho que o teto orçamental é importante, porque nos protege de nós próprios. A perseguição ao tempo por volta chegou a um nível insustentável: gastas milhões e milhões de euros num “jogo” de décimos de segundo. Os tetos orçamentais vão encurtar as diferenças de desempenho entre equipas. E isso é muito positivo. A competição precisa de equilíbrio. Não acredito que o desporto aguente uma equipa campeã 10 vezes seguidas.
Ao mesmo tempo, lutamos por isso. Quanto à redistribuição de pessoas, estamos a olhar para várias áreas. Temos a Fórmula E, cuja equipa foi entretanto transferida para Brackley, onde já trabalham. Temos ainda o nosso “braço” de engenharia, o Mercedes-Benz Applied Science, no qual desenvolvemos barcos de competição para a INEOS, bicicletas, projetos de dinâmica de veículos e táxis-drone.
Acabámos por encontrar atividades interessantes que se sustentam por mérito próprio. São rentáveis e dão-nos pontos de vista diferentes.
RA - Acredita que há alguma possibilidade de a Fórmula 1 e a Fórmula E se aproximarem no futuro?
TW - Não sei. Isso é uma decisão que terá de ser tomada pela Liberty Media e pela Liberty Global. Claro que eventos citadinos com Fórmula 1 e Fórmula E podem ajudar a cortar custos. Mas creio que essa é uma decisão puramente financeira, que cabe aos responsáveis das duas categorias.
RA - Recentemente vimos a Honda dizer que não quer continuar a apostar na Fórmula 1 e vimos a BWM deixar a Fórmula E. Acha que alguns fabricantes já não acreditam nos desportos motorizados?
TW - Os construtores entram e saem. Já vimos isso na Fórmula 1 com a BMW, Toyota, Honda, Renault… As decisões mudam. As empresas avaliam continuamente o valor de marketing do desporto e a transferência de imagem que ele permite. E, se não lhes agradar, é fácil sair.
Estas decisões podem acontecer muito depressa. Mas, para equipas que nascem para competir, é diferente. Na Mercedes, o foco é competir e colocar carros na estrada. O primeiro carro da Mercedes foi um carro de competição. E é por isso que esta é a nossa principal atividade.
RA - Acha que os combustíveis sintéticos serão o futuro da Fórmula 1 e do desporto motorizado?
TW - Não tenho a certeza de que serão combustíveis sintéticos, mas acredito que serão combustíveis sustentáveis. Vejo mais futuro em combustíveis biodegradáveis do que em sintéticos, porque os combustíveis sintéticos são muito caros. O processo de desenvolvimento e de produção é complexo e custa muito.
Por isso, imagino mais o caminho a passar por combustíveis sustentáveis, baseados noutros ingredientes. Mas penso que, se quisermos continuar a usar motores de combustão interna, então temos de o fazer com combustíveis sustentáveis.
Grande Prémio de Portugal em Portimão: circuito e expectativas
RA - Este é o segundo ano consecutivo que Portugal recebe a Fórmula 1. O que acha do Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, e o que acha do nosso país?
TW - Gosto muito de Portimão. Conheço o circuito dos meus tempos no DTM. Lembro-me de termos feito lá o primeiro teste de Fórmula 1 do Pascal Wehrlein num Mercedes. E regressar agora para uma corrida de Fórmula 1 foi muito bom. Portugal é um país fantástico.
Quero muito voltar ao país num contexto normal, porque há muito para ver e fazer. Em termos de corrida, é um traçado mesmo muito bom - divertido de conduzir e também de ver.
RA - Que tipo de dificuldades este traçado coloca aos pilotos? Foi especialmente difícil preparar a corrida do ano passado, por não haver referências de anos anteriores?
TW - Sim, foi um desafio preparar um traçado novo e um circuito com subidas e descidas. Mas gostámos. Obriga a decisões mais expontâneas, assentes nos dados, e a uma maior capacidade de reação. E este ano será semelhante. Porque não temos dados acumulados de muitos anos. O asfalto é muito específico e o desenho da pista é muito diferente do que conhecemos.
Temos três corridas com traçados muito distintos neste arranque de época; vamos ver o que vem a seguir.
RA - Mas olhando para o traçado do Grande Prémio de Portugal, acha que é um circuito onde o carro da Mercedes-AMG Petronas pode aparecer forte?
TW - Neste momento é difícil afirmar. Acho que a Red Bull Racing tem estado muito forte. Vimos o Lando Norris (McLaren) fazer uma qualificação incrível em Imola. Os Ferrari estão logo atrás. Potencialmente, tens dois Mercedes, dois Red Bull, dois McLaren e dois Ferrari. Está tudo muito competitivo, e isso é bom.
O “grande circo” da Fórmula 1 volta a Portugal - e ao Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão - já esta sexta-feira, com a primeira sessão de treinos livres marcada para as 11h30. Na ligação abaixo podem consultar todos os horários para não perderem nada da etapa portuguesa do Mundial de Fórmula 1.
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