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França prepara-se discretamente para o pós-Deschamps com Zidane no horizonte até 2026

Dois homens de fato, um com prancheta, consultam calendários de 2025 enquanto caminham num túnel para um estádio de futebol.

A França prepara-se discretamente para um pós-Didier Deschamps, com o nome de Zinedine Zidane a pairar ao fundo como se fosse inevitável.

A selecção francesa já garantiu a qualificação para o Mundial 2026, mas em Paris a conversa parece dividida em duas metades: o presente, ainda nas mãos de Deschamps, e o futuro, que muitos já imaginam com Zidane no banco. Entre respeito, orgulho e jogos internos na federação, a transição vai-se desenhando sem que alguém queira dizê-lo frontalmente.

Deschamps finalmente fala da candidatura “natural” de Zidane

Nos últimos dias, em declarações aos media franceses, Didier Deschamps aceitou abordar um tema que normalmente evita: a sua relação com Zinedine Zidane e a possibilidade de o ícone de 1998 lhe suceder no comando da França. O seleccionador manteve um tom sereno, contido e quase cirúrgico.

Deschamps reconheceu que Zidane é um candidato “natural e esperado”, sublinhando, ao mesmo tempo, que a decisão final nunca será exclusivamente dele.

Esta nuance é relevante. Deschamps fez questão de recordar que quem escolhe o próximo seleccionador é o presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), e não o treinador em funções. A lembrança cumpre dois objectivos: respeita as regras institucionais e afasta Deschamps de qualquer ideia de que está a “escolher” ou a abençoar o seu sucessor.

Por trás das fórmulas educadas, o recado é evidente. Deschamps já não fecha a porta a uma era Zidane. Assume-a como possível - talvez até provável -, mas recusa fixar datas ou cenários. A prioridade continua a ser o Mundial na América do Norte, que ele próprio já descreveu, internamente, como o seu último torneio à frente da selecção.

Zidane tem orbitado o cargo há anos

Do lado de Zidane, nunca houve grande teatro sobre o tema. Ele não fingiu que a selecção não lhe interessa; simplesmente nunca quis persegui-la. Em 2022, no dia do seu 50.º aniversário, admitiu com naturalidade que treinar Les Bleus poderia tornar-se “um objectivo, mais tarde”. Sem provocação e sem mensagens encriptadas - apenas uma porta deixada entreaberta.

Desde então, o discurso manteve-se. Numa entrevista à GQ, explicou que, depois de uma carreira como a dele, pensar na equipa nacional lhe parece “lógico”. Destacou dois pontos: a experiência no Real Madrid ao mais alto nível e o vínculo simbólico à camisola francesa. Para muitos adeptos, estes argumentos soam quase a um programa.

O argumento de Zidane apoia-se em três pilares: uma carreira lendária como jogador, um histórico comprovado como treinador e uma ligação emocional forte à camisola francesa.

O jornal espanhol AS chegou a sugerir que a chegada poderia acontecer logo após o Mundial 2026. No papel, o enredo seria simples: Deschamps sai, Zidane entra, e a continuidade cruza-se com a renovação. Mas por trás da narrativa limpa está a realidade: nada está assinado e, na FFF, ninguém pode oficializar publicamente um sucessor enquanto Deschamps continuar no cargo.

Uma relação respeitosa, mas longe de um conto de fadas

Há uma pergunta sensível que regressa sempre: qual é, afinal, a relação entre Deschamps e Zidane? Os dois conquistaram juntos o Mundial de 1998 e o Euro 2000. Representaram, lado a lado, uma geração dourada. Os clichés gostariam de os pintar como amigos inseparáveis. A realidade parece mais matizada.

Na RMC, o comentador Daniel Riolo descreveu a ligação como “distante mas correcta”. Não há guerra, mas também não há irmandade - apenas duas personalidades fortes que seguiram caminhos distintos. Deschamps, o construtor meticuloso no banco. Zidane, o líder intuitivo que entrou mais tarde na carreira de treinador, mas que explodiu de imediato no Real Madrid.

  • História comum como jogadores, coroada pela vitória no Mundial de 1998
  • Identidades de treinador separadas e redes de influência diferentes
  • Respeito mútuo em público, pouca proximidade em privado

Deschamps raramente se alonga sobre a parte privada. Prefere destacar as conversas regulares, o respeito recíproco e o passado partilhado. Assim, evita alimentar histórias de rivalidade ou tensão e, ao mesmo tempo, impede que os jornalistas transformem cada contacto num sinal político.

O calendário: 2026 como ponto de viragem

Do ponto de vista desportivo, a linha temporal parece definida, mesmo que ninguém a grave em pedra. Deschamps caminha para o Mundial 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México, como treinador no fim de um ciclo longo. Já foi campeão do mundo como seleccionador em 2018, chegou a outra final em 2022 e juntou ainda um título da Liga das Nações.

Deschamps repete que a sua energia está concentrada no próximo torneio, não no legado nem no sucessor.

Nos bastidores, os dirigentes da FFF sabem que terão de decidir pouco depois da competição, independentemente do resultado. Um bom Mundial, desta vez, não garantirá automaticamente uma extensão. O país sente que uma página pode estar prestes a virar.

Período Estatuto de Deschamps Posição de Zidane
Agora – verão de 2026 Firmemente no comando da França Treinador livre, à espera do projecto certo
Pós-Mundial 2026 Fim do horizonte actual, decisão por tomar Principal candidato no debate público
2027 e além Possível papel de conselheiro ou regresso a um clube noutro contexto Potencial seleccionador da França ou num clube de topo

Qualquer negociação com Zidane deverá ficar longe das câmaras. A FFF não tem interesse em desestabilizar Deschamps antes de um evento desta dimensão. Ao mesmo tempo, ninguém quer “perder” Zidane outra vez, depois de anteriores quase-oportunidades para o cargo.

O que Zidane poderia trazer a Les Bleus

Se Zidane assumir, o que mudaria? O seu perfil como treinador já dá algumas pistas. No Real Madrid, foi mais gestor de egos do que obcecado por esquemas, mas ainda assim conquistou três Ligas dos Campeões. A grande força está em conduzir balneários cheios de estrelas sem as sufocar.

Na selecção francesa, a matéria-prima seria semelhante: Kylian Mbappé no auge, uma nova geração a pressionar por trás e expectativas globais em cada jogo. A aura de Zidane poderia traduzir-se em vários efeitos:

  • Atrair talentos com dupla nacionalidade que hesitam entre vários países
  • Manter um ambiente calmo num grupo sob pressão mediática constante
  • Renovar princípios ofensivos, preservando uma base pragmática

Deschamps instalou uma cultura de eficácia, por vezes criticada pelo estilo mais cauteloso. Zidane poderia conservar essa cultura vencedora e, ao mesmo tempo, dar mais liberdade criativa a certos jogadores. Poucos treinadores têm a mesma legitimidade para olhar Mbappé, Griezmann ou a próxima vaga de frente.

Riscos e pressões escondidas por trás de um cenário “de sonho”

A nomeação de Zidane não traria apenas brilho; traria também riscos reais. Suceder a um treinador que chegou a várias finais e levantou troféus raramente é simples. A fasquia já está no alto, e cada derrota seria analisada à luz dessa comparação.

O peso emocional também conta. Para os adeptos franceses, Zidane continua a simbolizar o milagre de 1998 e o desgosto de 2006. Transformar essa memória num trabalho quotidiano de seleccionador altera a relação: ele passaria de herói intocável a funcionário da federação, sujeito a prestação de contas.

O maior desafio de Zidane pode não ser táctico, mas psicológico: passar de ícone a treinador julgado por cada convocatória e cada substituição.

Há ainda um risco mais concreto para a FFF: se a negociação falhar ou se arrastar, a federação pode acabar sem Deschamps e sem Zidane, obrigada a improvisar uma terceira opção sob pressão.

O que os adeptos devem observar nos próximos meses

Por agora, os sinais surgirão em pequenos fragmentos, não em anúncios solenes. Alguns indicadores merecem atenção:

  • A linguagem usada por Deschamps em entrevistas após jogos importantes
  • Qualquer comentário público do presidente da FFF sobre planeamento a longo prazo
  • As próprias escolhas de Zidane: espera ou aceita um clube antes de 2026?

Se Zidane voltar a comprometer-se com um grande clube, a hipótese França pode recuar vários anos. Se continuar livre, a pressão sobre a federação só aumentará quando Deschamps se aproximar do fim do contrato.

Este debate sobre sucessão abre também uma reflexão mais ampla sobre as selecções na actualidade. O cargo mudou: os treinadores gerem calendários, exigências de marketing, redes sociais e fadiga dos jogadores como nunca. A competência táctica conta, mas a gestão de pessoas, a relação com os media e o planeamento a longo prazo costumam decidir quem se mantém neste nível.

Deschamps construiu o seu percurso dominando esse equilíbrio. Zidane, se avançar, entrará numa estrutura que exige não só vitórias e troféus, mas também calma, controlo e uma sensação de continuidade. O foco não será apenas sobre ele; será um teste à sua capacidade de lidar com um país que transformou a selecção num referendo semanal.


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